— Pai... você voltou...
Ao ouvir o tom carente de Amália, a expressão do Sr. Marques suavizou.
Vendo que ela não tinha a intenção de fazer queixas formais, ele logo entendeu a situação.
Parecia que o problema não era exatamente com as empregadas. Era mais provável que Amália estivesse sofrendo com os desconfortos do final da gravidez e, de mau humor, estivesse usando qualquer desculpa para desabafar.
Com o rosto inexpressivo, ele ergueu levemente o queixo na direção das duas empregadas, que estavam quase encolhidas no canto, e falou em tom neutro:
— Limpem isso e podem se retirar.
Aquelas poucas palavras soaram como música para as duas mulheres, quase como uma salvação.
Elas assentiram repetidamente, esquecendo completamente a postura. Começaram a recolher os cacos e limpar as manchas no chão com uma agilidade impressionante, temendo que o homem de humor imprevisível mudasse de ideia se demorassem um segundo a mais.
Em poucos instantes, o chão da sala estava impecável. As duas saíram de cabeça baixa, fechando a porta com cuidado para deixar o espaço totalmente livre para pai e filha.
Quando restaram apenas os dois na sala, o Sr. Marques sentou-se na poltrona em frente a Amália.
Ele não disse nada, apenas manteve o olhar fixo nela.
A barriga redonda de Amália ficava ainda mais proeminente quando ela se sentava no sofá.
As sobrancelhas do Sr. Marques se franziram involuntariamente.
Fazia apenas alguns dias que não a via, mas a barriga parecia ter descido e crescido ainda mais, fazendo a silhueta já frágil de Amália parecer sobrecarregada.
— O que foi, Amália? Quem te aborreceu?
— Ninguém me aborreceu.
Chegando a esse ponto, a frustração de Amália quase transbordava e seus olhos ficaram ainda mais marejados.
— Pai, não aguento mais essa comida sem graça.
— Quero comer algo apimentado, algo com sabor de verdade...
Amália estava desabafando seus verdadeiros sentimentos.
A gravidez já era algo exaustivo por natureza. Ela havia superado com dificuldade a fase dos enjoos matinais, mas agora, na reta final, tudo estava ainda mais doloroso.
Seu corpo estava sofrendo com os desequilíbrios internos da gestação, e como ela sempre adorou pimenta, os pratos leves e reconfortantes preparados pelos chefs da Vila das Nuvens Cinzentas simplesmente não a agradavam. O desconforto físico somado ao desejo não satisfeito por uma boa comida fazia com que seu humor fosse como um pequeno vulcão prestes a entrar em erupção.
Claro, além desse aspecto, havia outro problema mais profundo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias