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Despertar Depois dos 1460 dias romance Capítulo 1521

Wallace caminhava um pouco à frente. De repente, diminuiu o passo por meio segundo, numa pausa quase imperceptível.

Seus olhos turvos se moveram devagar nas órbitas, e suas orelhas se aguçaram de leve.

A rua não estava exatamente silenciosa.

Ao longe, vinha o barulho de uma barraca de lanches noturnos; mais perto, o farfalhar de gatos de rua pulando muros.

Mas, por baixo desses sons, ele captou algo diferente.

O atrito das solas contra o chão. Passos propositalmente abafados, mantendo certa distância, mas seguindo os três sem afrouxar.

O ritmo acompanhava o deles, mas, prestando atenção, era sempre um pouco mais lento, como se quem os seguisse temesse chegar perto demais.

Os passos de Wallace perderam meio compasso. Ele pigarreou e soltou um “hum” bem discreto pelo nariz.

No instante em que aquele som saiu, Jocelino, que vinha no meio, também hesitou por uma fração de segundo.

Quase ao mesmo tempo que Wallace reduziu o passo, os dedos de Jocelino, enfiados no bolso da calça, se dobraram levemente e bateram duas vezes na lateral da coxa.

Tique.

Tique.

Os olhos de Jocelino se moveram. Seus ombros relaxaram um pouco e, aproveitando o reflexo embaçado da vitrine de uma loja, ele lançou um olhar rápido para trás, na diagonal.

Atrás deles só havia escuridão. Não dava para ver o rosto de ninguém, apenas o canto de uma parede onde uma sombra projetada por um poste piscou e recuou na mesma hora.

Décio, que vinha um pouco atrás e mais para o lado, estalava o pescoço, virando para a esquerda e para a direita.

Sempre que virava para um certo ângulo, o canto dos seus olhos varria com rapidez aquela faixa de sombra atrás deles.

Não era impressão.

Embora não conseguisse enxergar com clareza, a sensação de estar sendo observado acionou o alerta na mente de Décio.

Uma vez podia ser paranoia. Duas vezes...

Wallace, mais à frente, abaixou-se devagar para amarrar o sapato.

Foi nesse momento que Jocelino tirou o celular do bolso e acendeu a tela.

A luz iluminou seu rosto. Ele franziu a testa, como se lesse uma mensagem com muita atenção, deslizando o dedo pela tela enquanto murmurava algo inaudível.

E, quase no mesmo instante em que guardava o celular de volta e girava o pulso, o olhar de Jocelino passou casualmente na direção de Wallace.

Os olhos dos dois se cruzaram por menos de um décimo de segundo. Sem tensão aparente, como se fossem apenas dois transeuntes se encarando por acaso.

Não houve nenhuma palavra entre os três, nem sequer uma troca direta de olhares.

Décio tirou um maço de cigarros do bolso, levou um à boca, abaixou a cabeça e acendeu o isqueiro com um clique seco.

O olhar de Jocelino escorregou naturalmente até Décio, que acendia o cigarro.

Décio se aproximou da chama. A luz subiu, iluminando metade de seu rosto e refletindo, por um instante, o brilho frio e letal dos seus olhos.

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