— ...mérito...
Só essas poucas palavras já foram suficientes para que Décio deduzisse de onde eles vinham e qual era, em linhas gerais, o objetivo daquilo.
Os homens que os seguiam haviam sido enviados, sem dúvida, pela família Saramago.
Décio entendeu a situação e sentiu a vigilância em seu peito relaxar um pouco, soltando um leve suspiro de alívio.
Ao que tudo indicava, eles não tinham ouvido nada que não devessem.
Mesmo assim, o fato de ele, Jocelino e Wallace terem saído naquele dia para se encontrar com Aeliana continuava deixando tudo delicado demais.
Todo cuidado era pouco.
Se aqueles dois sujeitos tivessem realmente escutado algo indevido, mesmo que fosse só um pedaço solto da conversa, o problema seria enorme, ainda mais considerando que por trás deles podia estar a família Saramago ou até forças ainda mais perigosas.
Décio umedeceu os lábios ressecados, e um brilho frio atravessou seu olhar.
Observou os dois em silêncio. Seus olhos escuros, naquela noite, lembravam os de uma pantera prestes a abater a presa.
Por precaução, aqueles dois não escapariam naquela noite.
Nesse momento, Wallace surgiu em silêncio, como um fantasma, na entrada de uma ruela paralela, trocando com Décio um olhar distante através da rua principal.
Wallace inclinou a cabeça de forma quase imperceptível e fez um gesto sutil na direção de Jocelino e dos dois homens mais à frente.
Mais adiante, Jocelino parecia finalmente ter chegado ao seu destino.
Ele parou na entrada de um beco sem saída.
A noite já ia alta, deixando o lugar ainda mais silencioso.
Aquela viela ficava longe da agitação da rua principal, e não se via nem mesmo a luz esporádica de alguma loja aberta.
À frente, havia uma passagem estreita. Na entrada, um poste torto, com a cúpula rachada, lançava uma luz pálida e intermitente. Em vez de iluminar, só deixava o ambiente ainda mais sinistro.
— O cara não volta pro hotel e vem se enfiar num buraco esquecido desses no meio da noite? Ou tá pulando a cerca ou tá fazendo negócio sujo!
— Agora a gente pegou ele.
— Rápido, grava.
— Quando a gente mostrar isso pra Sra. Fabíola, ela vai dar uma recompensa daquelas!
Na cabeça deles, aquele beco sombrio, abandonado e deserto era o lugar perfeito para um encontro clandestino ou uma negociação ilícita.
Aquele tal de “Narciso”, agindo de forma tão sorrateira num lugar como aquele, com certeza estava aprontando alguma coisa pelas costas da Sra. Fabíola.
Talvez eles até conseguissem filmá-lo encontrando uma “amante” ou fechando algum negócio ilegal.
Quando jogassem aquelas imagens na mesa da Sra. Fabíola, queriam ver como ele sairia daquela.
A adrenalina de Beto e Zeca disparou. A tensão e o cansaço de antes desapareceram por completo, substituídos pela euforia de quem já se via ganhando uma boa recompensa.

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