Jocelino se inclinou para olhar.
No exato instante em que abaixou a cabeça...
A mão esquerda do Sr. Lopes avançou de modo extremamente natural, como se fosse apontar alguém na foto.
Mas os dedos ultrapassaram a fotografia e seguiram, num movimento veloz, em direção ao dorso da mão esquerda de Jocelino, que estava apoiada sobre a mesa.
As unhas do Sr. Lopes rasparam de leve a pele no dorso da mão de Jocelino.
Foi um toque suave, tão leve que parecia acidental.
Jocelino puxou a mão de volta num sobressalto, e uma marca fina e esbranquiçada já tinha se formado ali.
Pelo menos a pele não havia sido rompida.
— Me desculpe, perdão.
O Sr. Lopes pareceu surpreso por tê-lo arranhado e se desculpou com uma expressão constrangida.
— Sr. Porto, não foi de propósito.
— Estamos tão ocupados investigando casos que até esqueci de cortar as unhas. Estão um pouco compridas, e eu nem percebi agora há pouco.
— Não machucou, certo?
Jocelino cravou os olhos nele.
Houve dois segundos de silêncio.
Em seguida, endireitou lentamente o corpo e recolheu a mão para o colo.
— Não foi nada — disse ele, com voz serena.
Mas, por dentro, sua mente era uma tempestade.
Desde que entrara naquela delegacia, Jocelino não tinha baixado a guarda nem por um segundo.
Por trás de cada gesto aparentemente banal, escondia-se uma intenção obscura.
O Sr. Lopes vinha agindo de forma tão natural até então; por que, de repente, tentou arranhá-lo?
Queria recolher seu DNA em segredo?
Por quê?
Se fosse apenas uma coleta rotineira de material de um suspeito, poderia ter pedido abertamente.
Mesmo que ele se recusasse, a polícia ao menos levantaria a questão. Fazer aquilo de forma sorrateira só provava uma coisa:
Havia alguém dando ordens nos bastidores.
Mas quem?
Jocelino deduziu que devia ser a família Saramago.
Mas por que eles fariam aquilo?
O que queriam com seu DNA?

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