Na tela, o Sr. Lopes dizia a Jocelino:
— Sr. Porto, seu advogado chegou.
— Já que o senhor insiste na presença do seu advogado para colaborar, vamos agora para a sala de atendimento. Por favor.
Ele viu Jocelino se levantar, murmurar alguma coisa e, em seguida, sair da sala de interrogatório sem demonstrar emoção alguma.
O olhar de Jeremias escureceu.
Aquele “Narciso” era muito mais difícil de lidar e muito mais perspicaz do que ele havia imaginado.
Mas isso não importava. A família Saramago já tinha conseguido, por meio deles, o que queria.
Agora, restava ver que tipo de cena ele e seu advogado encenariam.
Se o Sr. Saramago queria ouvir, então que ouvisse direito.
Na sala de interrogatório.
O Sr. Lopes segurou o celular, respirou fundo, recompôs a expressão e empurrou a porta para entrar novamente.
Jocelino ergueu os olhos para ele, com um olhar frio.
O Sr. Lopes deu um passo para o lado, liberando a passagem.
Jocelino se levantou, mas não saiu imediatamente.
Lançou um olhar para o Sr. Lopes.
A expressão do outro havia voltado à seriedade inicial, mas, no fundo dos olhos, havia um leve desvio, quase imperceptível.
— Sr. Lopes.
Jocelino quebrou o silêncio de repente, com a voz muito baixa:
— Aquele fio do meu cabelo... guardem bem. Não o percam.
— Para depois não chegarem diante dos seus superiores sem ter como se explicar, não é mesmo?
— Ter um fio de cabelo arrancado à força dói bastante.
— E eu garanto que os senhores não vão arrancar um segundo.
O corpo inteiro do Sr. Lopes enrijeceu.
Jocelino não voltou a olhar para ele e saiu diretamente da sala de interrogatório.
A luz pálida do corredor iluminava suas costas eretas.
No corredor, do lado de fora da sala de atendimento.
Ele fez uma pausa:
— Primeiro preciso verificar a integridade física e o estado mental do meu cliente, o Sr. Narciso Porto, antes de permitir que ele assine a procuração formal.
— Até lá, tenho o direito de intervir como consultor jurídico provisório.
Cada passo do Dr. Moreira seguia rigorosamente os regulamentos da Vila das Nuvens Cinzentas, sem dar margem a qualquer contestação.
Ainda assim, estava claro que o Sr. Siqueira não pretendia deixá-lo passar tão facilmente.
Embora fosse um procedimento rápido, ele enrolou por quase dez minutos.
Examinou os documentos do Dr. Moreira minuciosamente e, em seguida, voltou a erguer os olhos para avaliá-lo.
— Em qual escritório o Dr. Moreira trabalha?
— VerdeOuro Law, Avenida Central, número 188.
O Dr. Moreira respondeu com fluidez:
— Precisa que eu apresente também uma cópia do registro do escritório?
— Posso pedir ao meu assistente que envie por fax imediatamente.
— Não será necessário.

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