Aquela fala soou capciosa e até provocativa.
Ao ouvir isso, o Dr. Moreira não só não se irritou, como soltou uma leve risada, embora sem o menor traço de calor.
— Sr. Lopes, peço que meça suas palavras.
— Se o meu cliente tem ou não “algo a esconder”, isso cabe ao Judiciário decidir com base em provas, e não à polícia concluir ainda na fase de investigação. E isso, em hipótese alguma, deveria servir de pretexto para restringir os direitos legais dele.
— Quanto à verificação de identidade...
Ele se inclinou levemente para a frente. Seu olhar percorreu os rostos do Sr. Siqueira e do Sr. Lopes, e sua voz baixou, ficando ainda mais clara e firme:
— ...Estou bastante curioso para saber se a obsessão dos senhores por “procedimentos” decorre de prudência em relação ao caso ou se é apenas uma forma de ganhar tempo para fazer certas coisas... coisas que se tornariam inconvenientes depois que eu me encontrasse com meu cliente.
— Por exemplo, continuar determinados interrogatórios enquanto meu cliente ainda não tem acesso a orientação jurídica?
Essa afirmação praticamente apontava que a polícia poderia estar tentando se aproveitar da janela anterior à chegada do advogado para conduzir interrogatórios indevidos ou pressionar o suspeito.
As expressões do Sr. Siqueira e do Sr. Lopes mudaram.
O rosto do Sr. Siqueira se contraiu.
— Dr. Moreira, cuide do que diz!
— Se os senhores estiverem agindo conforme a lei, terão todo o meu apoio.
O Dr. Moreira desfez o sorriso e assumiu uma expressão severa:
— Portanto, peço que também ajam conforme a lei. Permitam que eu me encontre imediatamente com meu cliente.
— Se continuarem criando obstáculos sem fundamento, serei obrigado a comunicar a situação à Ordem dos Advogados e à Corregedoria da Polícia. E, quando isso acontecer, receio que o problema não será apenas meu.
Ele ergueu a pasta e olhou para o relógio:
— Agora são três e dez da tarde. Dou aos senhores cinco minutos para resolver isso. Às três e quinze, se eu ainda não tiver visto o Sr. Narciso Porto, darei início ao procedimento de denúncia.
— Os senhores preferem me conduzir até lá agora ou esperar receber minha petição de reclamação?
Silêncio.
No corredor, só se ouvia o tique-taque do ponteiro dos segundos do relógio do Dr. Moreira, tão nítido que chegava a incomodar.
A perspicácia e a firmeza do Dr. Moreira superaram as expectativas dos dois.
— ...Foi só uma pergunta.
Eles chegaram à sala de atendimento.
Um policial fazia a guarda na porta e, ao vê-los se aproximar, abriu-a.
Chamavam o local de sala de atendimento, mas ele parecia mais uma cela improvisada.
O espaço era estreito, com uma mesa, duas cadeiras e uma placa pendurada na parede com os dizeres: “Proibido gravar áudio e vídeo”.
Jocelino já estava sentado lá dentro. O ferimento no braço esquerdo tinha sido enfaixado de forma precária com um kit de primeiros socorros rudimentar fornecido pela polícia, e um leve tom avermelhado transparecia sob a gaze branca.
Seu rosto estava calmo, sem demonstrar emoção alguma, como se não fosse ele o ferido.
A porta foi empurrada, e o Sr. Siqueira entrou primeiro, seguido pelo Dr. Moreira.
— Sr. Porto, seu advogado chegou.
O Sr. Siqueira falou em tom protocolar:
— O tempo da visita é de trinta minutos.

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