Afinal, aquela vida estava amarga demais. O sofrimento em si era só uma parte do problema; o pior era a exaustão emocional.
Gustavo já estava paralisado, exigindo atenção constante, sem mencionar Daniela. Ela era o típico caso de alguém que só cresce para cima da família, descontando toda a sua raiva apenas em Rodrigo.
Ainda havia Felipe Oliveira em um hospital psiquiátrico, esperando pelo pagamento das mensalidades.
Carregando o peso de três pessoas sozinho, como Rodrigo poderia não estar exausto?
Mas aquele orgulho que carregava na alma e o senso de responsabilidade como primogênito não o deixavam simplesmente "jogar a toalha".
Após alguns dias parado, Rodrigo tentou procurar um emprego decente. Não buscava grandes cargos ou altos salários; mesmo começando de baixo, acreditava que sua experiência em gestão em grandes empresas e seus sólidos conhecimentos financeiros seriam suficientes para, no mínimo, colocar comida na mesa.
No entanto, ele pensou que seria simples.
A rede de contatos na pequena cidade era complexa, valorizando o apadrinhamento muito mais do que nas cidades grandes, tornando a realidade ainda mais cruel.
Na época da "glória" da família Oliveira, os favores distribuídos durante suas visitas podiam ter gerado alguma gratidão, mas o sentimento predominante era a bajulação de quem olhava de baixo.
Agora, com a família arruinada, era o clássico caso de chutar quem já estava no chão.
As pessoas que antes haviam sido promovidas pela família Oliveira e obtido vantagens, agora fugiam para bem longe, com medo de serem associadas a eles. E aqueles que antes invejavam o sucesso da família, ou simplesmente não suportavam ver o bem dos outros, pareciam ter finalmente encontrado uma válvula de escape.
Com currículos na mão, Rodrigo percorreu as poucas empresas minimamente estruturadas da cidade. O resultado era quase sempre o mesmo.
— Rodrigo? Ah... o que voltou de Vale Tropical? Aquele da família Oliveira?
O entrevistador ajeitou os óculos, levantando os olhos do currículo com uma avaliação indisfarçável e uma pena condescendente, antes de sorrir de forma protocolar:
— Sinto muito, Sr. Oliveira, mas o seu perfil pode não se adequar à nossa vaga...
— Bem feito!
— Sumam do nosso prédio!
Gustavo passou a vida inteira valorizando as aparências. Quando ficou rico, não economizou doações para a igreja local e para consertar as ruas da cidade, tudo para ganhar a fama de alguém que "não esqueceu as raízes" e desfrutar dos elogios dos vizinhos.
Agora, aquelas palavras vermelhas e cheias de insultos foram como bofetadas estaladas, atingindo em cheio o seu rosto já vulnerável.
Com os dedos trêmulos, ele apontou para as pichações. Seus lábios tremiam, incapazes de formar uma única palavra. Sua visão escureceu, a pressão arterial disparou e ele desmaiou no ato, caindo com um baque surdo no chão de cimento.
Daniela gritou aterrorizada. Os vizinhos saíram ao ouvir o barulho e, em meio ao caos, chamaram uma ambulância, levando-o às pressas para o hospital.
Conseguiram salvar a vida de Gustavo, mas o impacto do incidente foi devastador para ele. Ao acordar, permaneceu calado e apático, como se estivesse submerso em seu próprio mundo, sem voltar a falar com ninguém.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias