Seu rosto tinha um tom amarelado e abatido, os olhos estavam fundos. A respiração era tão fraca que ele parecia estar adormecido, alheio ao barulho estridente da TV de Daniela.
Mas pelo leve tremor em seus cílios, ficava claro que Gustavo não estava dormindo. Ele só não se importava mais com nada ao redor, isolando seus sentidos para o mundo exterior e mergulhando num mundo apenas dele.
Ignorava a todos.
Rodrigo observou a desordem sem demonstrar qualquer reação.
Havia trabalhado até a exaustão nos últimos dois dias. Fazia três turnos em empregos diferentes, emendando um expediente no outro; se houvesse o mínimo imprevisto no trânsito, o atraso virava uma bola de neve.
Sem saber se era apenas falta de sorte, todos os serviços recentes exigiram meia hora de hora extra. Rodrigo estava saindo de casa antes do sol nascer e voltando apenas às madrugadas.
Quando chegava, Daniela e Gustavo já estavam dormindo e a casa permanecia num breu e num silêncio mortal. O cansaço era tanto que ele mal tomava banho, desabando na cama, incapaz de arrumar qualquer coisa.
Fazendo os cálculos, foram apenas dois dias sem faxina, e o lugar já tinha virado aquele chiqueiro.
O saco de lixo que ele havia amarrado às pressas antes de sair, dois dias atrás, continuava intocado encostado na porta, esquecido.
Rodrigo depositou no chão a sacola com o pão de forma e a garrafa d'água que comprara no mercadinho da esquina, sentindo a irritação crescer no peito.
— Cheguei — murmurou com a voz rouca.
— Rodrigo? Por... por que chegou tão cedo?
Ao ouvir a porta, Daniela virou-se, assustada ao deparar com o filho paralisado na entrada.
Ela se lembrava de que ele só voltava lá pelas oito, nove da noite, ou até mais tarde. Por que tão cedo hoje?
Rodrigo não respondeu. O olhar vagava entre a bagunça ao redor e a tela da TV ainda ligada.
Seguindo os olhos do filho, Daniela se deu conta da desordem. Um traço de constrangimento passou pelo seu rosto, e ela se apressou a pegar o controle remoto, desligando o aparelho com um sorriso amarelo.
O ruído cessou bruscamente. O silêncio na sala tornou-se opressivo.
Ela tentou recolher as cascas de amendoim do chão de forma atabalhoada, mas depois de juntar duas ou três e não ter onde colocá-las, pareceu não saber como prosseguir, visivelmente desconfortável.


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