Sim, ela tinha contado.
Várias vezes no passado, quando ele passava noites inteiras em claro trabalhando em teses ou pesquisas acadêmicas.
Cecília aparecia com um caldo medicinal nas mãos, preparado com cuidado ao longo de seis horas, parava timidamente atrás dele e dizia, com uma voz baixa e suplicante:
— Renato, se precisar de ajuda com alguma coisa, pode falar comigo. Eu posso te ajudar...
— Você é uma caipira do interior, o que você entende disso? Não me enche! — Ele, na época, espantou Cecília com extrema irritação e impaciência.
O caldo medicinal, preparado com tanto sacrifício, espatifou-se no chão. O cheiro de ervas invadiu o quarto inteiro.
Com os olhos vermelhos, Cecília se agachou para juntar os cacos do chão, murmurando encolhida:
— Não é isso... Renato, eu realmente entendo. Eu realmente posso te ajudar...
Ele não sentiu a menor culpa naquele dia. Na verdade, só achou que ela tinha sujado seu quarto e atrapalhado sua pesquisa. Furioso, apontou o dedo na cara dela:
— Você acha que só porque sabe distinguir umas ervas e ferver um caldo, entende alguma coisa de medicina? Some daqui! Não me faça perder tempo!
...
Lembrando-se do que havia acontecido, a expressão de Renato Mendes ficou ainda mais constrangida:
— Você também nunca deixou claro que sabia medicina tradicional... Além do mais, esse tipo de coisa não tem nada a ver com o conhecimento profissional da medicina ocidental. Não é como se você pudesse me ajudar muito.
— Ah. — Cecília soltou uma risada debochada, com os olhos pingando ironia. — Dr. Mendes, acontece que foi exatamente a medicina tradicional, que você tanto menospreza, que resolveu o quadro crítico que a sua medicina ocidental foi incapaz de curar.
Ela curvou os lábios vermelhos e olhou para Renato, dizendo cada palavra de forma pausada:
— Está na hora de você estudar mais o básico da sua profissão.
Seus olhos límpidos, frios como estrelas de inverno, transbordavam um desprezo infinito:
— Some.
O talento e a arrogância dos quais Renato Mendes sempre se orgulhou foram completamente triturados por Cecília naquele instante.
Sem sequer se dar ao trabalho de olhar para ele de novo, Cecília chamou o mordomo Luccas e foi embora.
Saiu de lá com uma elegância implacável.
O elevador desceu até o térreo. Cecília saiu.
Por coincidência, viu cinco pessoas entrando de forma imponente no elevador em frente.
Ao erguer levemente o olhar, os olhos dela se encontraram com os do homem que estava na frente do grupo.
Ele era alto, com uma postura esguia. Mantinha uma das mãos no bolso, exalando uma aura indescritível de frieza e distanciamento.
Vestia uma camisa de seda preta levemente desajustada. Os dois primeiros botões estavam abertos, revelando a pele branca e a linha rígida da clavícula, o que dava àquele rosto austero e intocável um ar perigosamente desleixado.
Era um rosto que agradava aos olhos.
Mais bonito do que o de qualquer outro homem que ela já tinha visto.
As portas do elevador se fecharam lentamente, cortando o contato visual entre os dois.
Cecília não deu a mínima importância ao episódio. Com as mãos nos bolsos e passos imponentes, deixou o hospital.
— Sebastião, o que foi? Ficou de olho na garotinha? — Benício Soares enfiou a cabeça na frente do rosto de Sebastião Guimarães, analisando sua expressão. — Ela é realmente linda. Acho que nunca vi uma mulher tão bonita na minha vida. Só não sei... ela já é maior de idade?
Talvez pelo fato de saber que Vânia Guimarães estava fora de perigo, a tensão acumulada de Benício havia desaparecido, deixando-o mais solto.
O homem ergueu levemente o canto dos olhos. Sob o jogo de luzes e sombras do elevador, aquele rosto nobre, frio e incrivelmente belo carregava um ar de pecado irresistível.
— Eu não sou um animal.

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