No Grupo Pires, Tadeu foi afastado e Napoleão reassumiu o comando, fazendo com que tudo voltasse gradualmente aos trilhos.
Mas os dias de paz foram interrompidos por um telefonema da delegacia.
Do outro lado da linha, a voz do policial parecia ansiosa: — Sra. Pires, por favor, venha até aqui. Sua filha se perdeu e está na delegacia.
Glaucia levou um susto e ligou imediatamente para Lívia para confirmar, mas soube que Ícaro havia buscado Sérgio logo cedo. Ela tentou ligar para Ícaro, mas ninguém atendeu.
Glaucia dirigiu até a delegacia, mas sua tensão se dissipou assim que viu Eulália sentada lá.
O policial explicou ao ver Glaucia chegar: — Sra. Pires, essa criança veio sozinha até a delegacia. Ela disse que é filha do Sr. Pires e pediu para chamarmos o pai para buscá-la. Não conseguimos contato com o Sr. Pires, então tivemos que contatar a senhora.
Glaucia olhou para Eulália e achou a situação absurda. Embora não se desse bem com Hortência, ela não descontaria em uma criança.
Ela disse: — Essa não é minha filha e não tenho obrigação de levá-la. Mas posso dar o telefone da mãe dela para vocês chamarem.
O policial responsável estava prestes a aceitar, quando Eulália pulou da cadeira e disse: — Ela não me quer, eu não vou com ela! Eu só quero o tio Tadeu! Você liga para o tio Tadeu vir me buscar?
Que criança exigente, pensou Glaucia.
Ela olhou de relance para Eulália: — Não me importo se você brigou com sua mãe ou o que quer que seja. Estou muito ocupada e não tenho tempo para suas birras. Se quer que o Tadeu venha te buscar, espere aqui sozinha até ele atender o telefone.
Eulália bufou: — Eu espero. O tio Tadeu gosta mais de mim, ele com certeza não vai me deixar na mão.
Havia um tom de provocação e exibicionismo na voz dela enquanto olhava desafiadoramente para Glaucia.
Glaucia achou aquilo ridículo. Ela via a hostilidade nos olhos de Eulália e não esperava que a filha de Hortência gostasse dela, então respondeu friamente: — Como quiser.
Sem vontade de discutir com Eulália, Glaucia ia sair, mas foi retida pelo policial para prestar depoimento.
O que Hortência estava insinuando era óbvio.
— Tem uma clínica veterinária virando a esquina à esquerda. Minha amiga conhece vários veterinários excelentes lá, posso te indicar. — Disse Glaucia.
Hortência travou por um instante, sem entender: — Senhora, estou falando com a Eulália. O que você quer dizer com isso?
— Se não entendeu, é porque o diagnóstico está certo. Afinal, há uma barreira de linguagem entre humanos e animais. — Ironizou Glaucia.
Um jovem que estava no saguão para uma consulta ouviu e não conteve o riso, explicando de forma prestativa para Hortência: — Tia, a moça quis dizer para a senhora parar de latir aqui dentro.
"Tia"?
Hortência quase desmaiou de raiva ao ouvir o termo, e a explicação a deixou sem ar. Ainda assim, com os olhos vermelhos, ela se dirigiu a Glaucia com voz de vítima: — Senhora, Eulália é minha filha. Ela está chorando desse jeito, estou preocupada. Eu só queria entender a situação, como pode me xingar assim? A senhora... a senhora não deveria explicar o que fez com a Eulália?

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