Tadeu não demorou muito a descobrir que Hortência não era a única com pressa para tirar as fotos do noivado; Napoleão estava ainda mais desesperado.
A única razão pela qual Napoleão havia engolido o próprio orgulho e permitido que ele se casasse com Hortência era para reverter o massacre midiático.
As fotos de noivado eram obrigatórias.
E precisavam ser publicadas e promovidas nas redes sociais em peso.
Napoleão já havia até contratado uma equipe de relações públicas para redigir a narrativa.
A campanha de marketing seria focada na imagem de Tadeu como um homem profundamente apaixonado, que lutava pelo "amor verdadeiro". Chegaram ao absurdo de escrever que o casamento anterior com Glaucia havia sido forçado pela família contra a vontade de Tadeu.
No final da nota oficial, havia até um falso pedido de desculpas emocionado.
Napoleão afirmava publicamente seu arrependimento por ter ignorado a vontade do filho e o forçado a se casar com a mulher errada, causando sofrimento a todos. Ele declarou estar disposto a pedir perdão e corrigir o seu erro.
Em resumo, a narrativa era a definição de "minimizar a culpa e distorcer os fatos".
Assim que Tadeu pisou em casa, Napoleão o obrigou a decorar o roteiro da entrevista. Ele passou a noite inteira em claro decorando as falas. Na manhã seguinte, foi arrastado da cama para fazer cabelo e maquiagem e levado como um fantoche para acompanhar Hortência até o estúdio de fotografia.
Aquela era a chance de ouro para o Grupo Pires salvar sua imagem pública.
Napoleão levou o evento tão a sério que exigiu que Vitória supervisionasse pessoalmente a escolha do vestido de Hortência, o que transformou a vida de Vitória num inferno.
Afinal, mesmo tendo dado a aprovação, Napoleão desprezava Hortência do fundo da alma. Ele fez exigências cruéis para o ensaio fotográfico, sendo a principal delas: não deixem claro o quão vulgar ela é.
A mensagem nas entrelinhas era óbvia: a essência de Hortência jamais se equipararia ao padrão da elite da família Pires.
Toda essa pressão caiu no colo de Vitória.
Ela queria que Hortência parecesse mais jovem, mas as cores vivas não combinavam com a aura pesada dela.
Ela queria que Hortência parecesse sofisticada, mas o corpo dela não tinha porte para sustentar um vestido de alta-costura.
Ela queria que Hortência parecesse recatada, mas a postura corporal dela era lastimável.
Depois de muito estresse e para evitar um desastre fashion público, Vitória optou por um vestido branco simples que cobria até as panturrilhas.
Era o modelo mais minimalista possível, com pouquíssimos detalhes. Pelo menos assim não haveria margem para passar muita vergonha.
Antes de sair, Vitória fez questão de dar ordens estritas à estilista para que a maquiagem e o penteado de Hortência fossem o mais discretos possíveis.
Mas Hortência estava furiosa com aquilo.
Para ela, aquela simplicidade excessiva significava que Vitória não queria gastar dinheiro com ela.
Ela estava a um passo de se tornar a Sra. Pires.
E aquele era o dia das fotos do seu noivado! Como podiam tratá-la com tamanha mediocridade em um dia tão importante?
Durante todo o trajeto, Hortência estava eufórica, tagarelando sem parar. Mas a mente de Tadeu estava vagando em lugares muito sombrios.
Até na hora das fotos, ele instintivamente manteve distância física de Hortência. Não queria contato. Seu olhar desviava o tempo todo, numa recusa física em encará-la.
Aquele estúdio era muito famoso no círculo da elite. Ele e Glaucia haviam tirado as fotos do próprio casamento ali.
Mesmo já tendo se passado cinco anos, e o fotógrafo não sendo o mesmo, o simples fato de estar ali naquele espaço com Hortência fazia Tadeu sentir uma onda de culpa e humilhação nauseante.
Ele chegou a sentir que podia ouvir as pessoas rindo dele pelas costas.
*Abriu mão de uma esposa jovem, genial e de classe inquestionável... para acabar com uma mulher mais velha, caçadora de fortunas e extremamente vulgar.*
O fotógrafo logo percebeu a completa apatia e aversão de Tadeu. Tentando ser profissional, ele pediu educadamente:
— Senhor, por favor, aproxime-se um pouco mais da noiva. Seria ótimo se houvesse algum contato físico. E os seus olhos precisam focar no rosto dela com carinho, para conseguirmos capturar o clima de romance.
Sendo brutalmente honesto, o fotógrafo achou o casal absurdamente incompatível desde que eles pisaram no set.
Mas, como eram fotos de noivado de clientes podres de ricos, sua ética profissional exigia que ele fizesse o seu trabalho e os orientasse da melhor forma possível.
— Tadeu... — Com o aviso do fotógrafo, Hortência finalmente percebeu que Tadeu estava no mundo da lua. Ela o chamou apressadamente, puxando-o de volta à realidade.
Tadeu só então virou o rosto rigidamente na direção dela.

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