— Aqueles lá fora são seus parentes. Se não me falha a memória, foi você quem mandou eles irem arrumar problema para a Glaucia, e foi ela quem os mandou para a delegacia. Naquela época, eu claramente não queria tirá-los de lá, foi você quem implorou por eles. É por isso que trouxemos esse desastre para nós. Hortência, eu sempre achei que você fosse simples e bondosa, sem maldade alguma. Não imaginava que você fosse tão venenosa. Para morder a Glaucia, você é capaz de inventar algo tão infundado.
— Não é isso, Tadeu, eu não estou acusando de propósito. Pensa bem, antes a Glaucia disse que ia processar aquele pessoal lá fora, mas depois que os tiramos de lá, nada aconteceu, não é?! Além disso, foi fácil demais trazer eles de volta na época. Isso com certeza foi uma carta na manga que a Glaucia guardou. Ela está tentando nos prejudicar de propósito. — argumentou Hortência.
Quanto mais pensava naquilo, mais Hortência achava que fazia sentido. Até a sua voz se tornou mais firme do que o habitual.
Suas mãos balançaram novamente a manga de Tadeu:
— Quem é venenosa é a Glaucia. Desde o começo ela não planejava nos deixar em paz. Tudo isso é culpa dela.
— Chega! — A voz que soou foi a de Napoleão. — Num momento desses, em vez de pensar em como resolver o problema, você fica empurrando a responsabilidade. Se a Glaucia quer processá-los, que processe. Hortência, não se esqueça de que você já se casou e entrou para a família Pires. Você já não faz mais parte do mesmo grupo daquela gentalha lá fora. Se você ainda não consegue entender o seu lugar, a família Pires não precisa de uma nora cujo coração não está aqui.
Vendo que ele havia se irritado, Hortência levou um susto e correu para demonstrar obediência.
Napoleão continuou:
— O problema foi causado por vocês duas. Deem um jeito de resolver sozinhas. Depois desta noite, não quero ouvir mais um pio sobre esse assunto.
Após jogar essas palavras, Napoleão subiu as escadas com Vitória. Ele não estava disposto a desperdiçar nem mais uma sílaba com Hortência.
A sala de estar foi ficando silenciosa. Hortência ergueu o olhar e encontrou as pupilas frias de Tadeu. A inquietação em seu coração aumentou, e ela puxou levemente a manga dele:
— Tadeu, o que vamos fazer agora? Eles... Eles vieram para extorquir. Se não dermos dinheiro, eles não vão embora.
— Então dê dinheiro a eles. — disse Tadeu, virando a cabeça e olhando seriamente para ela. — Hortência, se bem me lembro, eu já te dei muitas joias e bolsas, além de dinheiro em espécie. Pelo menos umas dezenas de milhões. Por que você não tira um pouco disso e resolve o problema com aquelas pessoas?
Hortência arregalou os olhos. Ela olhava para Tadeu, incrédula, duvidando dos próprios ouvidos:
— Tadeu, o que você quer dizer? Você quer que eu use o meu dinheiro para pagar a eles?
Ao ouvir a voz estridente de Hortência, um lampejo de insatisfação cruzou os olhos de Tadeu:
— Hortência, você sabe muito bem que meu pai bloqueou meus cartões. Além disso, aqueles lá fora são seus parentes e a confusão começou por sua causa. Então é você quem deveria resolver. Só estou te dando essa ideia porque vi que você não consegue resolver e fiquei com medo de que meu pai pegasse no seu pé. E outra, todo esse dinheiro que você tem não fui eu quem te deu? Talvez você não saiba, mas quando a Glaucia estava comigo, eu nunca deixava que o dinheiro nas mãos dela ultrapassasse cinco milhões. Eu sei que você gosta de se comparar com a Glaucia. Sendo assim, do que você ainda reclama?
Sua voz soava persuasiva, guiando-a sutilmente, o que acalmou um pouco o estado de espírito de Hortência, embora ela ainda sentisse uma leve estranheza naquilo tudo.
— O quê? Tudo? Tadeu, você vai dar todo o dinheiro para eles? — questionou Hortência.
Como assim?
Aqueles trinta milhões foram economizados com todo o cuidado, ela mesma não tinha coragem de gastar. Como é que aquela gentalha lá fora merecia tanto dinheiro?
Os olhos de Tadeu tremeram levemente, exibindo um cálculo evidente.
Exato. Como é que aquela gentalha merecia gastar o dinheiro da família Pires?
Tirar um milhão para despachá-los já seria um ato de extrema misericórdia de sua parte.
Quanto ao restante...
Lembrando-se de algo, um leve sorriso se formou no canto de seus lábios.

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