Quando Glaucia saiu, Tadeu não tentou impedi-la.
Ele também não foi embora de imediato. Apoiou-se lentamente no carro, acendeu um cigarro e não desviou o olhar do prédio da Coração d’Água Tecnologia Ltda à sua frente.
Aquele lugar havia sido preparado por ele próprio para Glaucia. Ele ainda conseguia se lembrar da alegria radiante dela quando chegou à empresa pela primeira vez, desenhando os planos para o futuro.
Ela disse que levaria a marca deles para todo o país, para o mundo.
Ela realmente era talentosa e, a esta altura, já havia concluído grande parte daquele objetivo inicial. A Coração d’Água também se tornou uma marca renomada no país, mas... já não era a marca dos dois.
Assim como ela. A pessoa que, gradativamente, ficava cada vez mais distante.
O cigarro queimou até o fim, a cinza caiu no chão e o vento a soprou para longe, sem deixar vestígios. Exatamente como Glaucia, que foi embora com determinação e apagou com facilidade tudo o que viveram juntos.
Mas ele...
Tadeu reprimiu a angústia no peito e deu um sorriso autodepreciativo antes de finalmente entrar no carro e partir.
Ele estava tão distraído que nem notou a presença de Hortência, parada em um canto mais afastado da Coração d’Água.
Hortência lançava um olhar envenenado enquanto o carro de Tadeu desaparecia de sua vista. A fúria não podia mais ser contida; suas unhas cravavam na própria carne, fazendo as palmas das mãos sangrarem.
E a pessoa parada ao lado dela era, surpreendentemente, Giselle.
Giselle, que antes não conseguira entrar em contato com Hortência, manteve pessoas de olho em Glaucia.
A intenção original de Giselle era reunir mais algumas provas para enviar anonimamente a Hortência e depois jogar um pouco de lenha na fogueira.
Contudo, menos de dez minutos após receber a informação de que Tadeu estava na Coração d’Água, ela recebeu uma resposta de Hortência.
A garota adorou as lisonjas de Giselle e aceitou o convite para sair e fazer compras.
Giselle, então, aproveitou a oportunidade perfeita e guiou Hortência diretamente para os arredores da Coração d’Água, fazendo-a presenciar a cena com os próprios olhos.
Embora tivessem chegado um pouco tarde e estivessem a certa distância, impedindo que ouvissem toda a conversa entre Glaucia e Tadeu, elas conseguiram entender o contexto geral.
Sem contar que, mesmo após Glaucia ter voltado para dentro, Tadeu permaneceu imóvel, e aquele olhar cheio de saudade e obsessão não enganava ninguém.
Ao ver a expressão quase à beira do colapso de Hortência, Giselle se sentiu satisfeita por dentro, mas por fora demonstrou surpresa:
— Nossa, Sra. Pires, e-e-esse... esse é o Sr. Pires e a ex-mulher dele, né? Como é que eles estão juntos? Isso...
A surpresa exagerada de Giselle, fingindo não conseguir formular uma frase completa, fez com que a ira de Hortência se tornasse ainda mais evidente.
Para se aproximar de Hortência, Giselle vinha se colocando em uma posição inferior, enchendo-a de elogios falsos, o que fez Hortência deduzir, presunçosamente, que Giselle era apenas mais uma oportunista tentando se pendurar no status da família Pires.
Por isso, Hortência não fez a menor questão de ser educada.
Giselle revirou os olhos discretamente, transbordando repulsa por Hortência. Como ela imaginava, essa mulher era uma completa idiota. Deu sorte de subir na vida e virar uma perua de família rica, e agora achava que podia dar ordens nos outros.
Viviane, sim, era a joia preciosa da Sra. Marques, e sempre falava com os outros com educação, nunca criando dificuldades para as pessoas ao seu redor como essa vagabunda.
Mas, lembrando-se de que tudo o que estava fazendo era por Viviane, Giselle engoliu o ressentimento e perguntou com voz mansa:
— A Sra. Pires vai brigar com o Sr. Pires?
— E isso é da sua conta? — Hortência questionou novamente, tentando se soltar da mão de Giselle para continuar a ligação.
Giselle insistiu:
— Logicamente, eu não tenho o direito de me meter nos assuntos da Sra. Pires e do Sr. Pires. Mas já que a senhora me considera uma amiga, eu preciso lhe dar um conselho. A situação nem está clara, pode até ser um mal-entendido. Se a senhora ligar agora para tirar satisfações, ele pode achar que você está o seguindo ou que não confia nele. Temo que isso esfrie os sentimentos do Sr. Pires e acabe criando uma rachadura na relação de vocês.
A mão de Hortência paralisou. Ela franziu a testa, de repente achando que as palavras de Giselle faziam algum sentido.
Porém, ao lembrar dos seus trinta milhões que ela levou tanto tempo guardando e nem tinha coragem de gastar, Hortência sentiu que não conseguia engolir aquele desaforo. Ela guardou o celular, mas começou a andar furiosa, marchando diretamente em direção à entrada da empresa.

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