Tadeu estava concentrado em calcular as próximas etapas da rota de fuga e não tinha a menor paciência para lidar com Hortência.
O silêncio dele não impediu Hortência de continuar destilando suas lamentações:
— A minha família foi de gente humilde e honesta por gerações! Como é que de repente eu virei criminosa sem nem saber o porquê? Tadeu, isso tem que ser um mal-entendido, né? A gente vai conseguir limpar o nosso nome logo, não vai? Senão, com que cara eu vou olhar para os antepassados da família Galvão?
Vitória, que sempre viveu cercada de luxo e mimos, manteve-se calada até então, sem reclamar da desgraça.
Mas ao ouvir o vitimismo da ex-babá, a velha elitista perdeu a compostura:
— Você não cala essa boca nunca? Já chegamos no fundo do poço, ninguém queria estar nessa situação!
— O Tadeu não está quebrando a cabeça para tirar a gente daqui? Dá para você parar de atrapalhar e ser inútil pelo menos uma vez?
— E como é que eu tô atrapalhando? Foi o Tadeu quem me encheu de falsas promessas! Ele disse que eu ia ter a melhor vida do mundo e que nunca mais ia passar sufoco.
— Eu nunca passei tanta necessidade, nem na casa da minha família! Agora vocês me enfiam num buraco desses e eu não posso nem dar minha opinião?
— E olha a minha roupa! Tá encharcada! Como eu vou ficar assim?
— Pra começo de conversa, a gente podia ir comprar roupa seca, né? Eu vi que tem um lugar vendendo umas coisas lá fora. O que custa a gente ir comer uma comida de verdade? — retrucou Hortência, usando sua clássica postura cínica.
O silencioso Tadeu finalmente levantou a cabeça. Seus olhos escuros e sombrios fixaram-se nela. Após alguns segundos de silêncio calculista, ele dissimulou o ódio e suavizou o tom de voz:
— Hortência, meu bem, a culpa é minha. Fui imprudente e não pensei direito nas coisas. Essa comida realmente não é digna de você. Vamos fazer o seguinte: vai lá fora, compra algo bom para comer e aproveita para comprar roupas novas para você.
— Eu vou sozinha? Vocês não vêm comigo? — ela murmurou, surpresa.
Tadeu mentiu sem piscar:
— Acho que abri meus machucados por causa do esforço da natação. Estou sentindo tanta dor que não consigo me mexer. A mamãe vai ficar aqui cuidando de mim. Vai lá comer primeiro, depois a gente dá um jeito.
No passado, Hortência teria se atirado nos braços dele, choramingando preocupação para exibir sua devoção cega.
Mas agora, depois de ver Tadeu tentar abandoná-la para voltar com Glaucia, e sentindo na pele a realidade da miséria absoluta, a imagem daquele herói rico e intocável já estava em ruínas na cabeça dela. Ela não tinha mais disposição para abanar o rabo e agradá-lo.
Ao ouvir que ele estava apenas com "dor nos machucados", ela franziu a testa com impaciência. Como não queria ficar e brincar de enfermeira para ele, saiu rapidamente.
Assim que ela virou as costas, Vitória cuspiu as palavras com nojo:
— Mas que tipinho nojento! Fica aí pagando de coitadinha do interior, mas na hora do aperto é a primeira a agir como madame. Tadeu, por que você ainda dá corda pra essa vagabunda?

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