Sua mente se acalmou lentamente. Impedida de levantar pelo soro intravenoso, acomodou-se nos travesseiros, aguçando os ouvidos na tentativa de captar qualquer som vindo do quarto ao lado. Os minutos se arrastavam enquanto o céu começava a clarear pela janela. O relógio marcava seis e vinte da manhã.
Foi quando ouviu um ruído. A porta da sala de repouso se abriu. Cora virou a cabeça instintivamente e viu Bernardo entrar com sua calma de sempre. Ele segurava algumas sacolas de comida.
— Acordou tão cedo por quê? — perguntou ele, de forma serena.
Cora escolheu não responder.
— Melhor assim. Coma um pouco. O médico disse que você não pode ficar de estômago vazio, ou essas crises vão continuar — alertou Bernardo.
Ele lançou um olhar para o leito do lado de fora. Noelia ainda dormia, mas a menina costumava acordar por volta das sete. Bernardo transferiu a parte do café da manhã destinada a ela para uma garrafa térmica e, em seguida, serviu o de Cora com uma familiaridade assustadora.
— Coma primeiro — orientou ele.
Ela encarou a refeição quente à sua frente, mas a urgência a venceu.
— Sobre o Professor Ackles...
— Coma, Cora. — O tom dele era uma ordem indiscutível.
Contrariada, ela pegou a tigela e os talheres. Era Caldo de porco com ovo cozido, o seu prato preferido. Como detestava gengibre e cebolinha, ia tirando tudo com cuidado com a colher.
Bernardo observou a cena em silêncio. A imagem de sua falecida esposa lhe veio à mente. Ela também repudiava esses mesmos temperos. A mulher sentada à sua frente demonstrava, cada vez mais, trejeitos que ecoavam as lembranças do seu passado.
Cora continuou comendo de cabeça baixa enquanto Bernardo fazia companhia. De repente, o celular dele vibrou. O visor exibia o nome de Sérgio Lira. Sem o menor pudor, ele atendeu a ligação na frente dela.
— Se não foi apenas negligência técnica, estamos falando de homicídio premeditado. A intenção era garantir que a sua menina morresse na mesa de cirurgia.
Sérgio fez uma breve pausa, consolidando suas ideias.
— Já o prontuário que você me mandou da Noelia, somado aos relatórios enviados por e-mail, formam uma revisão clínica excelente do estado dela na primeira cirurgia. O quadro é exatamente idêntico ao da sua filha. Considerando que as duas têm a mesma idade, ou essas meninas estão ligadas de alguma forma, ou caíram nas garras do mesmo psicopata.
O olhar de Bernardo escureceu ainda mais e ele se voltou novamente para Cora. Por fora, mantinha-se imperturbável.
— Tem certeza absoluta disso?
— Bernardo, eu sou médico. Acha mesmo que eu não reconheceria a assinatura de um colega de profissão? Cada cirurgião possui um padrão único na hora de suturar e tratar uma incisão. É algo extremamente autêntico. A forma como os cortes foram fechados no caso da Noelia e no da sua filha é idêntica — arrematou Sérgio de forma contundente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Encurralada pelo Meu Ex-Marido Obsessivo
Não entendi nada pq o diálogo dessa negociação mudou para essa linguagem nórdica....