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Flores Que Florescem Na Lama romance Capítulo 283

Adriana Pires sentiu um arrepio inexplicável, uma onda de inquietação a invadiu.

Instintivamente, ela tocou a máscara e os óculos em seu rosto, certificando-se de que ambos estavam no lugar.

Mesmo que os tirasse, ela não era mais a mesma de antes.

Ele não a reconheceria.

Depois de se tranquilizar com esse pensamento, ela finalmente se acalmou, decidida a terminar o trabalho o mais rápido possível para nunca mais voltar ali.

Enquanto isso, Anan estava sentada em um balanço no parquinho, balançando os pezinhos no ar. Seus grandes olhos curiosos percorreram o lugar, mas logo perderam o interesse. Ela então começou a recitar algo em silêncio.

A funcionária que a acompanhava observava seus movimentos com curiosidade. Ao ver o último olhar da menina, pareceu-lhe que transmitia a ideia de que "todos aqui são idiotas".

Para evitar um mal-entendido, a funcionária se agachou curiosa, e quando estava prestes a perguntar algo, ouviu a pequena resmungando alguma coisa. Ela se aproximou para ouvir melhor.

— Oh! Deus! Onde estás que não respondes?

— Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes?

A funcionária ficou confusa.

— Anan, o que você está dizendo?

Anan Pires franziu suas delicadas sobrancelhas e perguntou com sua vozinha infantil:

— Você não entende?

A funcionária hesitou, arriscando um palpite.

— Parece um poema?

Mas achava impossível.

Uma criança tão pequena, que mal conseguia falar direito, como poderia recitar poesia?

A pequena respondeu, um pouco desanimada:

— Hmm, a mamãe me mandou decorar.

— O que você está recitando?

— O Navio Negreiro.

A funcionária ficou sem palavras.

— Mamãe disse que meu português não é bom, que preciso recitar mais para não esquecer minhas raízes.

A Adriana cresceu no país M e, embora em casa falasse português com a mãe, o ambiente linguístico era o inglês, o que fazia com que Anan Pires não gostasse muito de falar português.

Para corrigir isso, Adriana Pires pegou um grosso volume de material e mandou Anan Pires decorar.

A funcionária olhou para o celular. De trás para frente... Seus olhos se arregalaram.

— Meu Deus! Você consegue mesmo recitar de trás para frente?

Isso era humano? Uma criança de dois anos não deveria estar com o nariz escorrendo e pedindo doces? Por que ela era tão genial?

Anan Pires não quis mais falar. Ser interrompida tantas vezes a deixou descontente, e ela não queria responder mais nada. Mas sua mãe havia dito que não se deve ser mal-educada, então ela apenas murmurou um "uhum".

A funcionária ficou completamente chocada, sem conseguir se recuperar por um bom tempo.

A pequena simplesmente foi para a área de areia do outro lado, encontrou um canto vazio, sentou-se e continuou a recitar. Desta vez, não era mais O Navio Negreiro, mas o Soneto de Fidelidade.

— De tudo, ao meu amor serei atento...

Recitou até se cansar, parou para respirar. Afinal, crianças pequenas não têm muito fôlego. Quando estava prestes a continuar, uma voz veio de dentro de um túnel de brinquedo ao lado.

— Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto.

Anan Pires virou a cabeça num piscar de olhos.

Olhando para o túnel, ela esticou seu dedo gordinho e cutucou.

Outra frase surgiu:

— Que mesmo em face do maior encanto.

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