Ofélia tinha ido cedo para a escola e ainda levara café da manhã para Sabrina.
Enquanto comia, Sabrina comentou: "Irmã, seu marido é realmente incrível! Só de olhar para ele já dá para ver que tem dinheiro! Ele trabalha com o quê? Deve ganhar muito bem, né?"
Ofélia não quis continuar nesse assunto: "Está bom, o dinheiro dá para a gente viver. Aliás, sobre aqueles dados da manhã, você já sabe como resolver?"
Sabrina imediatamente teve a atenção desviada.
Ofélia mergulhou nas tarefas do trabalho.
Já Rui, não conseguia se concentrar em absolutamente nada.
Na noite anterior, ele não dormira. Depois de voltar das compras e se despedir de Levi, subira para casa, ficara um tempo ao lado da cama observando Ofélia.
Depois, desceu e passou a noite inteira sentado no sofá, imóvel.
Naquela noite, sua mente funcionara como uma máquina precisa e complexa, revendo com clareza cada contato que tiveram até então.
Naquele momento, ele se odiava profundamente por ter uma memória tão boa.
Repassava mentalmente cada acontecimento, cada instante, lembrando exatamente das palavras de Ofélia, das expressões no rosto dela.
Quando vivenciara tudo aquilo, não sentira nada. Mas agora, rememorando, parecia um espectador, enxergando o constrangimento, a dor e o coração partido de Ofélia.
Ele não era um marido à altura.
Nem de longe se podia falar em carinho. Diante dela, nele, não havia nem sombra da palavra amor.
Lembrou-se de uma frase, sem saber exatamente quem lhe dissera.
Queria que ele a protegesse das tempestades, mas no fim, toda a tormenta partira dele.
Rui se torturava mentalmente, revendo, uma e outra vez, o passado com Ofélia.
As palavras frias que dizia quando estavam a sós, mesmo sem querer agir assim, como se estivesse possuído, sempre dizendo as coisas mais cruéis.
Sempre que Ofélia e Ivonete discutiam, ele invariavelmente ficava do lado de Ivonete.
Isso era gostar?
Parecia mais inimizade.
Seus sentimentos, nunca quis que ninguém percebesse.
Mesmo os amigos mais próximos achavam que ele gostava de Noelle ou de Ivonete.
E como Ofélia se sentiria?
A resposta era clara.
Agora, Rui se arrependia profundamente, mesmo sem saber ao certo como se deveria tratar alguém que se ama.
Mas, certamente, não era daquele jeito.
Ele estava errado, completamente errado.
Lembrou-se das palavras de Ofélia, hesitou alguns segundos e discou um número.
Do outro lado, logo atenderam, e ele ouviu aquela voz suave e animada, tão familiar.
"Rui!"
Rui respondeu com um som baixo e perguntou: "Ivonete, você já..."
No meio da frase, não soube como continuar.
Perguntar o quê?
Se Ivonete já se gabou diante de Ofélia?

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