CAPÍTULO 2 — COMO SE EU NUNCA TIVESSE EXISTIDO
Isadora tentou esquecer.
Tentou mesmo.
Durante dias, se agarrou à rotina como se ela fosse capaz de apagar o que tinha acontecido. Trabalho, compromissos, silêncio. Tudo milimetricamente organizado, como sempre foi.
Mas não adiantou.
Porque agora não era só lembrança.
Era consequência.
E consequências não desaparecem só porque você decide ignorar.
Ela encarava o teste positivo sobre a mesa como se aquilo ainda pudesse mudar.
Como se, em algum momento, alguém fosse aparecer e dizer que houve um engano.
Mas não houve.
Era real.
Ela estava grávida.
De um homem que nem sequer teve a decência de ficar até o amanhecer.
O peito apertou.
Mas dessa vez, Isadora não chorou.
Chorar não resolveria.
Nunca resolveu.
Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.
Havia apenas uma decisão a tomar.
Encontrá-lo.
Não por ele.
Nunca por ele.
Mas por aquilo que agora existia dentro dela.
Ela precisava olhar nos olhos de Davi Ferraz.
Precisava entender com quem estava lidando.
***
O prédio era exatamente como ela imaginava.
Alto.
Imponente.
Frio.
Vidro e aço refletindo o céu cinza da cidade.
Tudo ali gritava poder.
E controle.
Isadora hesitou por um segundo antes de entrar.
Mas apenas por um segundo.
Porque agora não era mais sobre orgulho.
Era sobre algo maior.
Ela caminhou até a recepção com passos firmes, ignorando o olhar avaliador da atendente.
— Tenho uma reunião com Davi Ferraz.
Mentira.
Mas dita com confiança suficiente para soar real.
A mulher digitou algo rapidamente no computador.
— Seu nome?
— Isadora.
Um segundo.
Dois.
A atendente franziu levemente a testa.
— Ele não tem nenhuma reunião agendada com esse nome.
Isadora engoliu seco.
— Então diga a ele que eu estou aqui.
A mulher hesitou.
Mas havia algo no olhar de Isadora que a fez pegar o telefone.
Alguns segundos de silêncio.
Uma troca rápida de palavras.
E então…
— Pode subir.
O coração de Isadora acelerou.
Mas seus passos não vacilaram.
***
O elevador parecia lento demais.
Cada andar subindo como se fosse uma contagem regressiva.
Quando as portas finalmente se abriram, o ambiente era ainda mais silencioso do que o restante do prédio.
Mais exclusivo.
Mais distante.
Ela caminhou pelo corredor, sentindo o próprio coração bater mais forte a cada passo.
Até parar diante da porta.
Respirou fundo.
E entrou.
Davi estava exatamente como ela lembrava.
Talvez até mais.
De pé, atrás da mesa, ajustando o relógio no pulso, como se estivesse prestes a sair.
Impecável.
Controlado.
Intocável.
Ele ergueu os olhos quando ela entrou.
E por um segundo…
apenas um segundo…
houve reconhecimento.
Mas desapareceu rápido demais.
Substituído por algo pior.
Indiferença.
— Você.
A voz dele era neutra.
Fria.
Como se estivesse falando com uma desconhecida.
O impacto foi imediato.
Mas Isadora se manteve firme.
— Precisamos conversar.
Davi pegou alguns papéis sobre a mesa, como se ela não estivesse ali.
— Eu não tenho nada para conversar com você.
Simples.
Direto.
Cortante.
Como se aquilo fosse apenas um detalhe irrelevante no dia dele.
Isadora sentiu o peito apertar.
Mas não recuou.
— Você vai querer ouvir o que eu tenho pra dizer.
Ele soltou uma leve respiração impaciente, finalmente olhando diretamente para ela.
— Não, eu não vou.
Silêncio.
Pesado.
Desconfortável.
Mas Isadora deu um passo à frente.
— Eu estou grávida.
As palavras saíram firmes.
Sem tremor.
Sem hesitação.
O mundo pareceu parar.
Mas Davi…
não reagiu.
Nenhuma surpresa.
Nenhum impacto.
Nada.
Ele apenas a encarou por alguns segundos.


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