Rita ouviu uma voz familiar, ficou um pouco surpresa e, ao levantar a cabeça, viu Chica. Sua alegria foi tanta que parecia ter encontrado uma salvadora.
"Querida..."
Rita viu o suco de frutas nas mãos de Chica e até engolir a saliva se tornou impossível para ela.
Sua garganta estava seca e dolorida, e os lábios rachados e sangrando por falta de água.
"Querida, você veio me trazer algo para comer?"
Rita apoiou-se na parede com uma mão e se levantou.
O quarto no sótão era pequeno.
Com poucos passos, ela chegou à porta.
O braço esquerdo não se movia, então ela agarrou a grade de ferro com a mão direita, olhando ansiosamente para o suco de mirtilo nas mãos de Chica.
"Chica, minha linda, lembra que Tiazinha sempre foi tão boa pra você... me dá o suco pra eu beber, pode ser?"
Chica inclinou a cabeça, seu olhar inocente pousou um tempo sobre Rita.
Disse: "Na verdade, isso é mesmo pra Tiazinha."
"Tiazinha, eu vou te passar, pega devagar, tá? Pra não derramar."
"Tudo bem, Tiazinha entendeu. Obrigada, minha querida."
Rita olhava fixamente para o suco de mirtilo, sem sequer piscar.
O desejo do corpo dela transparecia nos olhos, como se aquele fosse o remédio que a manteria viva.
Chica deu dois passos à frente.
Com sua mãozinha frágil, passou o copo pela grade e entregou o suco para Rita.
Rita bebeu vorazmente, quase engolindo de uma vez só.
Chica recuou alguns passos.
A prótese bateu num vaso de planta, e a dor no membro amputado quase a fez chorar.
Ela cerrou os dentes, aguentou firme e se curvou para massagear o local dolorido.
Rita só percebeu que algo estava errado quando terminou de beber o suco de mirtilo.
Tinha areia misturada, tinta, e ainda pimenta...
Sua boca e estômago ardiam como se estivessem em chamas.
O gosto estranho da tinta dava-lhe ânsia de vômito, mas ela não conseguia vomitar.
O desconforto era tanto que só queria enfiar a mão na garganta e arranhar tudo, da boca ao estômago...
"Você... Chica, você é mesmo maldosa."
Os olhos de Chica se encheram de lágrimas e, magoada, disse a Rita: "Foi Tiazinha quem me ensinou."
"Quando encontrar alguém de quem você não gosta, não mostre. Faça a pessoa sofrer, mas faça os outros acreditarem que você é inocente."
"Agora, a pessoa de quem eu menos gosto é você, Tiazinha... Eu te odeio. Você me usou pra machucar minha mãe, eu te odeio."
Rita esticou a mão pela grade, tentando alcançar Chica.
Mas Chica, precavida, já mantinha distância.

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