O motorista Urbano a observava com pena.
No dia a dia, Isabela sempre o tratara muito bem.
Isabela enxugou as lágrimas e deu um sorriso amargo.
Ela se curvou e entrou no carro.
— Urbano, vamos embora.
A chuva batia forte contra o vidro do carro, ressoando com a dor surda em seu peito.
Mergulhada numa angústia profunda, foi surpreendida pelo toque estridente do celular em sua bolsa.
Ela o pegou e, ao ver o nome na tela, seu olhar suavizou. Engoliu o nó na garganta para disfarçar a voz rouca do choro.
— Oi, vó.
Do outro lado da linha, a voz carinhosa da avó soou:
— Isabela, já encontrou com o Carlos?
Isabela hesitou por um momento.
— Encontrei.
— Que bom. Como você me disse ontem que ele chegaria hoje à noite, fui cedo à feira e comprei muitos frutos do mar. Até encomendei uma lagosta enorme, gastei a minha aposentadoria do mês inteiro!
— Quando tiverem um tempo, venham jantar aqui em casa.
Ao ouvir aquilo, os olhos de Isabela marejaram novamente.
— Não precisava ter comprado, ele não liga para essas coisas.
Alana riu.
— Vocês brigaram? Se ele liga ou não, o problema é dele. Eu preparar tudo é a minha demonstração de carinho.
Isabela fungou, tentando mudar de assunto.
— Vó, como a senhora tem passado?
A avó fez uma breve pausa, mas respondeu com um sorriso na voz:
— Estou bem, não aconteceu nada comigo.
— E a minha mãe?
Alana ficou em silêncio por um longo momento.
Ela o amava. Casar-se com o homem inalcançável que sempre admirara na juventude era, para ela, uma sorte que ofuscava as estrelas. Seus olhos transbordavam da alegria de finalmente estar com ele.
Jamais imaginou que isso se tornaria uma prisão.
Um barulho de batida pelo telefone trouxe Isabela de volta à realidade.
— Isabela, o vento abriu a janela e a chuva está entrando. Vou lá recolher a roupa. Fique bem com o Carlos e não se preocupe tanto comigo.
Após o aviso, Alana desligou o telefone às pressas.
Olhando para a tela escura, os dedos de Isabela apertaram o aparelho com força.
Carlos cortara as despesas médicas da sua mãe sem dizer uma palavra.
Fazia sentido. Eles estavam prestes a se divorciar, então é claro que ele não ligaria para uma estranha que não tinha mais nada a ver com ele.
Ela desbloqueou a tela novamente, abriu o WhatsApp de Carlos e respondeu com apenas uma palavra:
— Tudo bem.
Daqui a cinquenta dias, o projeto da vila cultural da Empresa de Turismo e Cultura Vieira chegaria ao fim.
Quando esse dia chegasse, não haveria mais laço algum entre eles.

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