(Ponto de vista de Grace)
Encarei o copo de uísque na minha mão, observando o líquido âmbar refletir as luzes do bar.
— Então, é isso. — Murmurei, as palavras saindo levemente arrastadas.
— Essa é a história da minha maldita vida.
Soltei uma risada amarga e levei o copo aos lábios, sentindo o ardor descer pela garganta.
— Descobri que meu noivo é gay poucos dias antes do casamento. E além de ser gay... — Bufei, balançando a cabeça.
— O desgraçado ainda me bateu. Dá pra acreditar?
Virei-me para o barman que limpava um copo, mas havia congelado no meio do movimento, os olhos arregalados.
— Eu é quem deveria ter batido! Como deixei aquele bastardo levantar a mão pra mim? Eu devia ter acertado a cara dos dois em vez de ficar parada chorando feito uma idiota.
O barman pousou o copo e balançou a cabeça, visivelmente abalado.
— Uau. Quando eu disse que queria ouvir a sua história de vida, não achei que fosse ser tão pesada. Jesus. — Ele assobiou baixo.
— Nem consigo imaginar o quão horrível você deve estar se sentindo agora.
Larguei o copo no balcão com um leve tilintar, piscando com força enquanto minha cabeça girava. O álcool queimava na garganta, e tudo parecia intenso demais.
Eu nem lembrava como tinha chegado ali. Num segundo, eu estava saindo furiosa daquela casa maldita; no outro, estava estacionando em frente a algum hotel aleatório. Em vez de reservar um quarto como uma pessoa normal, fui direto para o bar e pedi a maior garrafa de uísque que tinham.
Agora, a maior parte já tinha ido embora. Franzi a testa, cutucando o rótulo descascado da garrafa como se ele tivesse me ofendido pessoalmente.
"Deus, isso é tão clichê."
Pensei, me sentindo miserável. Fui traída, estou bebendo até me destruir e despejando minha história triste em cima de um completo estranho.
Eu costumava revirar os olhos quando via mulheres fazendo isso em livros e filmes.
"Nossa, que falta de originalidade. O autor devia arrumar um jeito melhor de lidar com isso."
Eu costumava pensar assim, mas agora eu entendia.
Quando você se sente tão mal, tão inútil, tão completamente sem valor, às vezes a única coisa que anestesia é beber até perder a noção.
Empurrei o copo em direção ao barman.
— Imagina isso. — Falei com um tom de voz amargo.
— Descobrir que seu noivo está te traindo? Já é ruim o bastante. Mas descobrir que ele nunca sentiu atração por mulheres? Que amava outra pessoa e só te usava pra esconder que é gay? E, pra completar, ainda teve a audácia de te bater enquanto protegia o amante.
O barman engoliu em seco, largando o pano. O rosto dele estava pálido.
— É… se fosse comigo, eu provavelmente me mataria. — Ele levantou as mãos rápido.
— Não se mata, tá? Sério, não faz isso.
Ele pegou a garrafa de uísque e encheu outro copo até a borda, colocando-o na minha frente como se estivesse oferecendo uma trégua.
— Esse é por conta da casa. Não se preocupa, querida. Você vai encontrar alguém muito melhor. Alguém melhor do que esse lixo.
"Alguém melhor?"
Encarei o líquido dourado rodopiando no copo. Quem era melhor que Charles? Tenho vinte e três anos. A maioria dos homens da minha idade é tão ruim quanto ele: irritantes, infantis e incapazes de me dar o que eu queria. Talvez eu devesse procurar homens mais velhos a essa altura da minha vida. Pelo menos saberiam satisfazer uma mulher e tratá-la direito.
Peguei o copo e virei tudo de uma vez. Pousei o copo vazio com mais força do que pretendia e enterrei o rosto nas mãos, apertando os olhos. Eu odiava isso. Odiava essa sensação pra caralho.
Meu telefone começou a tocar, vibrando contra o balcão do bar. Olhei para ele, piscando, a visão um pouco turva por causa do uísque.
Fiquei encarando o identificador de chamadas por um bom tempo, o polegar pairando sobre a tela. Era minha mãe. Eu não queria atender. Deus, não queria. Porque já sabia como isso ia terminar. Eu podia explicar tudo, gritar, chorar, implorar, e não faria diferença. Nunca fez com a minha família. Mas alguma parte pequena e patética de mim ainda tinha esperança. Eu queria acreditar que, talvez, dessa vez fosse diferente. Que talvez ela realmente me ouvisse. Que talvez me defendesse ou, ao menos, tivesse pena de mim.
Atendi.
— Mãe…
Nem terminei a palavra antes de a voz dela explodir no telefone.
— Sua criança estúpida! — Ela gritou.
— Que história é essa que estou ouvindo da família do Charles?! Você desfez o noivado? Você enlouqueceu? O casamento é em poucos dias!
Mordi o lábio, um velho hábito nervoso que achei que já tivesse superado, mas claramente não.
— Mãe, eu… o Charles, ele—
— Cala a porra da boca se não consegue falar direito! — Ela berrou. Eu me encolhi, afastando um pouco o telefone da orelha.
— Quero que você volte para aquela casa agora mesmo. — Ela ordenou.
— Se ajoelhe, se for preciso. Implora pra ele te aceitar de volta!
Por um momento, fiquei paralisada, olhando para o balcão, para o copo vazio.
— Mãe… — Minha voz saiu trêmula.
— Como eu posso voltar pra ele? O Charles… ele me traiu. Eu peguei ele com outra pessoa. Na nossa cama.
Houve uma pausa do outro lado, e eu achei que ela ficaria do meu lado. Que finalmente me defenderia. Mas então ela riu, com desdém.


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