“Regras?”
Lavínia arqueou levemente os lábios, deixando transparecer um traço de escárnio em seu olhar.
“Regras de quem? Da sua família? Por que eu, sendo uma pessoa de fora, deveria seguir as suas regras? Além do mais, todos sabem que ninguém vive sem comer. Sentir fome e se alimentar é natural. Passei a noite inteira ao lado da vovó, nestes últimos dias me dediquei ao tratamento dela com todo empenho. Não posso nem sequer tomar um café da manhã na casa da família Lourenço? Se este comentário chegasse aos ouvidos de outros, todos iriam rir da mesquinhez da família Lourenço, não acha?”
O rosto de Lucinda se tornou sombrio, e ela se levantou da cadeira batendo com força a mão na mesa.
“Você não tem educação, e ainda quer ter razão? E mais, quem lhe ensinou a falar assim com os mais velhos?”
“Vou repetir: estou com fome e quero comer, é simples assim. E mais, para mim, você não é minha parente, pois, com a sua conduta, não está à altura de ser considerada alguém da minha família.”
Ao terminar, Lavínia revirou os olhos para Lucinda, sem se abalar, sentou-se tranquilamente na cadeira e pegou a colher para começar a tomar o mingau.
Lucinda podia falar o quanto quisesse; Lavínia não se importava. Para ela, o mais importante naquele momento era saciar a própria fome.
Afinal, a família Lourenço já costumava agir de maneira irracional havia muito tempo. Não fazia sentido ela se privar por causa deles.
“Você... você...” Lucinda estava tão furiosa que seu rosto alternava por diversas cores, como luzes de um letreiro de festa.
Ainda bem que seu filho já havia se divorciado daquela mulher.
Se tivesse que conviver com alguém assim todos os dias, certamente morreria de raiva.
Pensando nisso, Lucinda lançou um olhar hostil em direção a Lavínia, depois se voltou para Lívia, cada vez mais satisfeita ao vê-la. Tomou a mão de Lívia e a convidou para sentar-se ao seu lado. “Você sim é uma jovem atenciosa, mesmo com uma carreira tão ocupada, ainda encontra tempo para nos visitar.”
“Sra. Lourenço, não precisa me elogiar, apenas faço o que se espera de mim como parte da família.” Lívia demonstrou perfeita compreensão, levantando-se para servir o mingau a Lucinda e posicioná-lo à sua frente.
“Este mingau ainda está um pouco quente, cuidado ao tomar.”
O tipo de nora que Lucinda sempre idealizou era exatamente como Lívia: educada, gentil, humilde e respeitosa. Como já havia tido um relacionamento com Roberto, seria fácil reaproximá-los.
Ao pensar nisso, Lucinda lançou um olhar intencional para Lavínia e, de propósito, comentou: “Lívia, realmente, só alguém de uma família tradicional saberia como se portar. Assim que entrou, já soube me servir o mingau. Diferente de certas pessoas, que só sabem comer com avidez, parecendo que não comem há dias, com maus modos e sem a menor noção do quanto se tornam constrangedoras.”

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