Assim que disse isso, Alice foi em direção à porta principal da empresa, com tanta preguiça que não estava disposta a gastar sequer uma palavra extra com Jorge Cavalcanti.
A partir daquele instante, ela estaria finalmente livre das correntes de ser conhecida apenas como Sra. Cavalcanti.
Foi apenas nesse exato momento que sentiu ter conquistado um novo fôlego de vida.
No passado, ela acreditara sinceramente que estaria presa a Jorge e àquela família pelo resto de seus dias. Mas agora, sentia-se afortunada e imensamente grata por aquela cerimônia absurda tê-la despertado.
Grata por tê-la feito entender que, nesta vida, a única pessoa em quem podia se apoiar plenamente era a si mesma.
Ela nunca mais precisaria suplicar afeto de outras pessoas ou basear seu valor existencial no reconhecimento alheio.
Apenas o fato de ela existir já tinha valor intrínseco!
Observando a porta cada vez mais próxima e o mundo vasto e iluminado lá fora, Alice puxou o ar e deixou um sorriso contagiante aparecer.
Jorge permanecia cravado no chão, acompanhando com o olhar as costas de Alice enquanto ela se afastava.
Aquelas últimas palavras dela provocaram um aperto inexplicável no coração dele, suplantando repentinamente o excesso de raiva que sentia.
Era como se uma peça extremamente valiosa, escondida na profundeza mais recôndita de sua alma, tivesse sido arrancada de forma violenta.
O que diabos Alice quis dizer com aquilo?
Ele queria correr atrás dela e exigir que explicasse o que significava o tal "finalmente não ter qualquer relação" com ele.
— Professor, os líderes do instituto já devem estar chegando. Acho melhor a gente se preparar para recebê-los. — As palavras cautelosas de Sabrina interromperam a urgência de Jorge, barrando o impulso de ir atrás de Alice para extrair uma resposta.
É verdade, os problemas urgentes da empresa vinham em primeiro lugar.
Contanto que a inspeção conduzida pela nova Diretora do Centro de Pesquisa transcorresse sem percalços, eles certamente fechariam o tão sonhado acordo de parceria.
— O que aconteceu? Eles não estão prontos lá dentro? Que estranho... Eu tinha acabado de confirmar com a Sabrina no telefone.
Às vezes, as exigências do trabalho impediam Jorge de atender ligações importantes. Então ele passara o contato direto de Sabrina para Samuel no instituto.
— Aquela Sabrina é assistente da presidência aqui, além de ser funcionária sênior no laboratório. Conversei com ela por telefone umas duas vezes e essa moça tem uma baita capacidade, ela parece entender muito do assunto.
Lá no fundo, o Diretor Lima sabia exatamente o que Jorge planejava: estava usando a influência do diretor para construir pontes e elevar o capital social de Sabrina. Inicialmente, ele até achara aquilo incômodo, mas, por notar que a moça era perspicaz e muito bem embasada, acabou não esquentando a cabeça.
— Não, o problema não é a recepção. Toda a cadeia de gestores da empresa está organizada no saguão, esperando por você. — pontuou Alice.
— E por que você saiu? A inspeção já não deveria ter começado? Não tem necessidade de ficar me esperando... De qualquer forma, no final quem dá o aval na aprovação do projeto é você.
Uma vez que Alice detinha a liderança e autoridade oficial como Diretora do Centro de Pesquisa, as deliberações e os vetos finais cabiam única e exclusivamente a ela.

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