Isso mostrava que, entre as pessoas, a diferença entre importar-se e não importar-se era muito clara.
Era apenas ela que, antes presa em sua gaiola, nunca tinha notado essa distinção de tratamento.
Claro, agora ainda havia tempo para tudo.
Alice ignorou Sabrina, virou-se e foi até as suas coisas amontoadas debaixo da mesa. De lá, procurou o que queria levar e guardou na sua mochila.
Ao ver a cena, o rosto de Sabrina ficou tenso de constrangimento.
— Desculpe, Sra. Cavalcanti. O professor Jorge me disse para usar este escritório. Como eu tenho muitas coisas, coloquei as suas de lado temporariamente. Eu planejava organizá-las depois, eu...
— Não precisa se preocupar, eu já não quero mais nada disso. Tudo o que está aqui dentro é seu agora, pode ficar à vontade com elas. — Alice respondeu num tom extremamente calmo, desprovido de qualquer emoção; estava apenas declarando um fato.
Ela de fato não queria mais nada. Esse escritório, esta casa, as pessoas aqui... já não queria mais nada.
Mas Sabrina pareceu entender de outra forma. Os seus olhos encheram-se de lágrimas no mesmo instante. Ela deu a volta na mesa e ficou perto de Alice.
— Sra. Cavalcanti, não fique com raiva.
— Eu não estou com raiva. — Apenas estava exausta.
— Sra. Cavalcanti, eu sei que essas são apenas palavras da boca para fora. Peço-lhe desculpas, tudo isso é culpa minha. Sabe... depois daquele casamento falso, a minha reputação na minha cidade foi pelo ralo. A moça com quem eu dividia apartamento é de lá também, então tornou-se inviável continuarmos juntas. Por isso saí, mas, como temporariamente não achei onde morar, o professor Jorge ficou com pena de mim e me deixou ficar aqui temporariamente... Eu vou me mudar...
Alice lançou-lhe um olhar gélido, observando a encenação de Sabrina, prestes a ajoelhar-se, e retrucou, cansada:
— Chega. O Jorge não está aqui e também não há câmeras, você não precisa fazer essa encenação.
Sabrina congelou. Um rápido brilho de desconforto de quem fora descoberta atravessou seu olhar, mas logo ela voltou à expressão perturbada de antes.
Mas lá estava ela, usando e abusando da desculpa da sua família problemática.
Qual era a intenção dela com isso, não era preciso dizer.
— O Jorge é o seu salvador, mas eu não sou. Por isso, pare de atuar na minha frente. — Alice atingiu diretamente o cerne da questão, desmascarando a verdadeira natureza da situação.
Sabrina endireitou o seu corpo. As lágrimas presas no canto dos olhos já não pareciam querer cair, e o pânico de antes desaparecera por completo do seu rosto.
Quando Jorge finalizou a ligação e entrou no escritório, logo sentiu que a atmosfera da sala não era boa.
Como Sabrina estava de costas para ele, ele não conseguia ver as feições do rosto dela. Porém, ouvindo as respirações aceleradas de Sabrina e vendo a expressão gélida de Alice, assumiu instintivamente que Sabrina estava sendo humilhada por Alice.
— Alice, fui eu quem mandei a Sabrina usar o seu escritório. Ela está sem ter onde morar e vai ficar na nossa casa por enquanto. Sendo a esposa do orientador dela, você deveria cuidar dela e ter compaixão, e não ficar imaginando coisas.

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