— Vão cuidar dos seus afazeres, não me perturbem. — A implicação era clara: fiquem longe de mim.
A cozinheira, sentindo-se perdoada de uma sentença de morte, saiu apressadamente da cozinha.
Os outros que observavam a cena também não ousaram ficar e saíram rapidamente.
No entanto, Jorge não foi embora. Ele foi para trás de Alice, observando-a cortar os legumes.
— Eles sempre trataram você assim antes? — Jorge perguntou.
— Sim, mais ou menos. — Alice respondeu friamente, sem grandes oscilações emocionais; ela estava apenas relatando um fato.
Na verdade, a atitude daquelas pessoas em relação a ela costumava ser muito pior.
— Então, por que você não me contou? — Jorge franziu as sobrancelhas.
— Por que eu deveria contar a você? — Alice concentrava-se nos legumes em suas mãos. — Eles apenas agem de acordo com a atitude dos patrões.
A própria família Cavalcanti nunca tinha gostado dela como nora, tratando-a como se fosse uma empregada. Os subordinados imitavam esse comportamento e, naturalmente, não a respeitavam.
E, para dizer a verdade, a raiz de tudo aquilo era o próprio Jorge.
Se Jorge prestasse um pouco de atenção nela como esposa, seus pais e sua irmã a tratariam um pouco melhor por consideração a ele.
Mas como Jorge sempre foi frio e distante, por que a família dele a trataria bem?
Jorge naturalmente entendeu o que Alice quis dizer. E aquela foi a primeira vez que ele escutou o que ela dizia com tanta paciência.
Ele não sabia por que, mas naquele momento, ao olhar o perfil de Alice, achou que ela estava diferente de antes.
Essa sensação de diferença fez com que ele se aproximasse involuntariamente, perto o suficiente para sentir claramente o leve cheiro de perfume que emanava do pescoço dela.
— Já estou ajudando Sabrina a encontrar um apartamento, ela se mudará de lá de casa logo. Pare de fazer birra e volte para casa.
O corpo de Alice ficou tenso. Ela podia sentir o calor exalando de Jorge, bem como a respiração quente do homem soprando contra seu pescoço, vindo de cima.
Essa proximidade repentina talvez a tivesse deixado feliz no passado, mas agora só lhe causava um extremo desconforto.
O que estava acontecendo com essa mulher? Ela nunca tinha sido assim antes. Será que ela estava recuando apenas para testá-lo? Ele já havia dado uma brecha para ela recuar dignamente; ela só precisava voltar para casa em obediência.
Mas vendo a expressão indiferente e a recusa dela em se comunicar, Jorge sentiu-se incrivelmente frustrado.
— Minha paciência tem limites, não abuse. — Finalmente, ele largou essa frase e se virou para sair da cozinha.
Logo coincidiu com o retorno tardio de seu pai, Henrique Cavalcanti. Depois que Henrique foi ao quarto ver Júlio, pai e filho entraram juntos no escritório.
Devido à condição de saúde de Júlio, tudo o que Alice preparou foram alimentos macios e de fácil digestão, focados em serem cozidos a vapor ou fervidos.
A comida ainda precisava cozinhar um pouco mais, e a cozinha estava abafada. Além disso, os olhares cautelosos, porém furtivos, das criadas que passavam a deixavam ainda mais desconfortável. Por isso, de olho no tempo, ela saiu da cozinha.
Não queria voltar para o quarto de Júlio no andar de cima e lidar com Camila e Yara. Então, ficou caminhando sem rumo pelo térreo.
Quando passava perto da sala de chá, viu por acaso um tabuleiro de xadrez em seu interior. Sobre ele, havia uma partida mais da metade jogada.
Ao olhar para as peças pretas e brancas no tabuleiro, uma memória há muito guardada no fundo do seu cérebro gradualmente ressurgiu, fazendo-a caminhar inconscientemente em direção à sala de chá.

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