O homem daqueles sapatos tinha uma postura ereta, firme como um pinheiro.
Mesmo através do tecido fino da calça do terno, Beatriz quase sentiu a força explosiva contida naquelas pernas.
Ela ergueu a cabeça com dificuldade.
Contra a luz, não conseguiu ver o rosto dele.
Apenas a linha perfeita e dura do maxilar.
E os olhos negros, profundos, como se pudessem engolir a alma de alguém.
O dono do quarto era Guilherme.
Ele acabara de ouvir da assistente Clarinda tudo o que a família Andrade fizera nos últimos dias.
A mensagem de socorro havia chegado ao celular de Clarinda dois dias antes.
Guilherme quase de imediato mobilizara contatos e recursos, levantando cada detalhe sórdido da família Andrade.
Ele pretendia surgir diante dela de um modo mais digno, mais esmagador, e arrancá-la daquele lamaçal sem que sofresse um arranhão.
Mas não imaginara que ela entraria no mundo dele assim: miserável, desesperada, e ainda assim ferozmente decidida.
Guilherme olhou para a mulher encolhida no chão.
O vestido branco estava amarrotado, manchado aqui e ali.
O cabelo, em desalinho; o rosto, ruborizado; o olhar, disperso — era evidente que ela ingerira algo que não devia.
O coração de Guilherme pareceu ser esmagado por uma mão invisível.
Uma dor lancinante e uma fúria avassaladora revolveram-se nos olhos dele.
Família Andrade.
Que bela família Andrade.
Ele se abaixou devagar.
Com uma delicadeza que contrariava por completo a frieza do seu porte, tomou Beatriz nos braços, carregando-a.
Ela era leve demais, como uma pluma.
E, ao mesmo tempo, queimava.


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