Ao tocar no assunto, Denise até sentira uma pontinha de ciúme, mas, ao ver todo mundo elogiando Lúcia, ela entrou na onda:
— É, ué. Minha mãe ganhou prêmio. Como é que não ia ser incrível?
— Agora faz sentido você desenhar tão bonito… é de família~
Em meio aos elogios das crianças, o humor de Denise melhorou na hora.
A Sra. Adriana era pintora profissional, mas a mãe dela também não ficava atrás — e ainda por cima escondia o jogo.
Pensando assim, Denise passou a olhar para Lúcia com uma admiração quase devota.
Só que, no meio daqueles olhares infantis, Lúcia viu de repente Noemi Ramos, no canto.
Noemi se apertara junto à porta da sala, os olhos grandes brilhavam, fixos nela, como se não piscassem.
— Noemi?
Lúcia foi até lá imediatamente.
Ao vê-la se aproximar, Noemi abriu um sorriso.
— Tia Lúcia.
Ela a avistara pela janela da turma ao lado e correra para cá.
— Você parece mais magrinha… não andou comendo direito ultimamente?
Lúcia reparou que o rostinho de Noemi estava abatido, parecia até que o queixo afinara desde a última vez que a vira.
Naquele dia do evento, Noemi usara o uniforme da creche. Agora estava com roupa comum: um moletom cinza, largo e gasto, limpo, mas totalmente desajeitado — o comprimento quase chegava aos joelhos.
— Uhum. — Noemi assentiu. No fundo úmido dos olhos, refletiam-se as feições gentis de Lúcia, era uma docilidade que doía.
— Você veio fazer o quê? Essa é a minha mãe, não a sua.
Assim que viu Noemi, Denise lembrou da mágoa da outra vez. Correu e se colocou na frente de Lúcia.
Lúcia pousou a mão no ombro dela.
— Denise, vocês são colegas. Essa atitude… é mesquinha demais.
— Eu não sou mesquinha. Eu só… não gosto de você ser mãe dos outros.
Repreendida, Denise franziu a testa, entre ofendida e irritada.
Mas ela prometera a Lúcia que não perderia a cabeça, que corrigiria os erros, que seria uma boa filha.
Lúcia beliscou de leve a bochecha de Denise.
— E quando foi que eu quis ser mãe de alguém? Sua bobinha.
Ciúme possessivo tão cedo… puxara a quem, afinal?
— Tia Lúcia… Denise… vocês têm um tempo no almoço? Eu queria pedir uma coisa.
Noemi olhou para as duas, o olhar tremulou, como se ela tivesse ensaiado por muito tempo antes de falar, baixinho.
Denise respondeu sem pensar:
— Não. Se você quer pedir alguma coisa, vai pedir pra sua mãe!
Mas, assim que terminou, Lúcia beliscou a bochecha dela de novo.
Dessa vez, um pouco mais forte.
Denise ficou ainda mais ofendida, os olhos se encheram de lágrimas.
Lúcia sorriu para ela. Só quando Denise se calou, Lúcia se voltou para Noemi:
— Noemi, qual é o seu pedido? Pode falar.
— Eu queria… pagar um almoço pra vocês. — Noemi pressionou os lábios, piscou várias vezes e, com todo cuidado, encarou Lúcia ao falar.


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