— Papai... quanto tempo falta para a mamãe voltar para casa?
De repente, a voz de Denise saiu baixa.
Antônio olhou para ela. Ela remexia a comida no prato, sem vontade.
Normalmente, era Lúcia quem a incentivava a comer, insistindo para ela evitar besteira e comer algo nutritivo.
Agora, a mesa estava cheia do que Denise adorava — sobremesa, frango frito, hambúrguer, batata frita... e refrigerante.
Mas, depois de algumas mordidas, Denise sentiu que não era como antes.
Nos últimos dias, com Adriana, ela comia bolo quando queria, e em toda refeição escolhia só o que gostava.
Mesmo assim, começou a achar que a comida simples de casa tinha mais gosto. Chegou a sentir falta dos pratos que Lúcia fazia.
— O quê? Está com saudade da sua mãe?
Antônio manteve o tom neutro.
— Não estou... — Denise respondeu baixinho, com a cara emburrada.
Lúcia não tinha ligado para ela nem uma vez naqueles dias. Quando ela ficou doente, Lúcia nem apareceu, quem ficou com ela foi a Sra. Adriana.
Se a mãe não sentia falta da filha, por que ela sentiria?
Antônio percebeu o que a filha pensava.
— Se está com saudade, liga. Ela é sua mãe. Não vai te ignorar.
— Eu nem quero que ela me dê bola.
Denise insistiu, teimosa.
— É melhor ela não estar aqui. Assim eu posso passar mais tempo com a Sra. Adriana!
Antônio olhou a carinha orgulhosa da filha e puxou um sorriso leve.
— Eu acho que você está dizendo o contrário do que sente.
— Não estou.
Denise fez bico e perguntou de volta:
— Esses dias a mamãe não está, você e a Sra. Adriana podem se ver sempre. Papai... você ainda vai sentir falta da mamãe?
Quem fica do nosso lado é o mais importante.
Quem a gente gosta é o mais importante.
Foi a Sra. Adriana quem disse isso.
Então ela não sentiria falta da mãe.
Antônio ficou sem resposta.
Sentir falta de Lúcia? Isso era impossível.
Mas ele não parava de pensar nela.
Será que hábito podia ser tão assustador?
— Sua mãe tem coisas para resolver. Como você queria, ela não vai voltar para casa por um bom tempo.
Depois de um silêncio, Antônio explicou.
Denise não disse mais nada.
E Antônio também não quis continuar falando de Lúcia.
Afinal, iam se divorciar. Se um dia Denise quisesse que Adriana fosse sua mãe, ele não via por que não.

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