Nada foi registrado depois disso. Não me lembrava de como havia chegado ao hospital, como se minha mente estivesse perdida em minhas memórias.
Quando eu era criança, fui emocionalmente negligenciada pela minha mãe. Rosália sempre havia deixado claro sua filha preferida, e ela não era eu. Meu pai sempre dava um jeito de preencher esse vazio, mas todo o afeto e carinho que eu recebia dele eram raros e encobertos por debaixo dos panos para que minha mãe não desconfiasse. Mas Ember também era a favorita dele. Ele costumava chamá-la de sua princesa. Já eu não era a favorita de ninguém. Eu só era a filha indesejada.
Ela não era amorosa comigo e não permitia que ninguém mais fosse. Não importava o quanto eu fosse boa ou me esforçasse para agradá-la. Eu sempre era deixada de lado, sempre era vista como um peso.
Agora eu estava aqui, entorpecida, sabendo que o meu pai não estava mais vivo e que não poderia mais me dizer o que queria quando fui embora. Todo o caminho até o hospital foi reflexivo, desde a minha infância até a vida adulta. A dor e a mágoa ainda estavam aqui e eu poderia fugir para o mais longe e nem mesmo assim a dor desapareceria.
Segui pelo corredor, meu coração disparando a cada passo. Vi Rosalía abraçada com Ember, me recompus e me aproximei delas. Era estranho, eu não senti pena de nenhuma das duas? Se o meu pai estava morto, elas tinham culpa nisso tudo.
Elas olharam para mim, os olhos de Rosalía vermelhos de tanto chorar. Seu vestido rosa amarrotado. Os olhos de Ember estão secos e eu sei o quanto ela estava se segurando para não me culpar.
— O que aconteceu com ele? – sentei-me ao lado de Rosália – meu pai parecia tão bem quando fui embora…
As palavras morreram em minha garganta, tomada pelas lágrimas. Era difícil imaginar que eu não o veria nunca mais. Desejei não ver muita gente pelo resto da minha vida, mas o meu pai não era um deles.
— Ele teve um infarto essa manhã – ela enxugou as lágrimas com um lenço – as últimas emoções foram fortes demais para ele – foi a maneira educada que Rosalía encontrou para dizer que a culpa de tudo aquilo era exclusivamente minha.
Ainda era um choque. Eu esperava vê-lo um dia, abraçá-lo e agradecê-lo por ele me fazer sentir amada, mas ele estava morto e eu não sabia como me senti.
— Você está bem? – Vincent apareceu correndo pelo corredor abraçando Ember.
Que cena patética… Aqueles dois não respeitavam nem a morte do meu pai. Ela chorou, fazendo uma cena merecedora de um Oscar, enquanto Vincent acariciava seus cabelos cheios de amor para dar.
Ember não havia derramado uma lagrima desde que recebeu a notícia, mas bastou que Vincent chegasse para ela se debruçar derramando lagrimas de crocodilos. Não estou dizendo que ela não amava o nosso pai, estou dizendo somente que ela era falsa em tudo o que fazia. A única coisa que importava para Ember era ser o centro das atenções.
Ouvi a respiração brusca de Vincent ao ouvir os berros de Ember e aquilo foi a comprovação de que ela ainda o afetava. Que idiota, conhecendo bem Ember, foi logo se apaixonar por ela. Vincent era um fraco e merecia sofrer enquanto minha irmã o desprezasse.
— Espero que você seja cordial e de espaço ao Vincent – disse minha mãe ao perceber que eu os observava.
— Isso é um pouco impossível, depois do que eles dois fizeram comigo.
— Eu não me importo com o que é possível ou não. Você já matou o seu pai de desgosto, não vai afastar a minha filha de mim também – ela cerrou os dentes enquanto enxugava as lágrimas.
Demorou demais para que Rosalía jogasse sobre mim a responsabilidade da morte do meu pai. Ela passaria o resto da vida me punindo por aquilo também. Eu tinha certeza disso.

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