Empurrei a porta com força quando Ember deu um salto, assustada e olhando para mim com os olhos arregalados. Minha mãe enxugou as lágrimas. Ela ainda lutava para sobreviver sem o meu pai. Minha mãe podia ter muitos defeitos, mas ela o amava e foi fiel durante todo o tempo em que estiveram casados.
Pela primeira vez, senti pena dela e a quis defender, embora Rosália não merecesse minha compaixão, quando tudo o que ela fez para mim foi me massacrar e me tratar como um lixo. Ela nunca se comportou como uma mãe para mim, sempre era para Ember o seu afeto e carinho e ali estava ela sendo pressionada pela pessoa que sempre idolatrou.
— A filha rejeitada voltou ao lar – Ember se aproximou de mim com um rosto severo e inexpressível – o que você está fazendo aqui, Daphne? Essa casa não é mais seu lar.
Olhei para as características proeminentes da minha irmã. Ela tinha uma boa aparência, mas por dentro era podre e fedia como um animal morto. Pensei em subir as escadas e esquecer o que eu havia escutado, mas me lembrei do meu pai e do quanto ele havia trabalhado para comprar aquela casa. O quanto ele foi feliz entre essas paredes. O corpo dele mal havia esfriado e Ember já pretendia se livrar dos seus bens.
— Você não pode forçar a minha mãe a vender a casa – os olhos de Ember de repente ficaram sombrios, mas ela riu em seguida. Riu tanto que poderia até passar mal.
— Você estava escutando atrás da porta? – ela apontou para fora – não se meta em assuntos que não são da sua conta, garota.
— Eu não vou deixar que você venda o que o meu pai lutou para conquistar, somente para salvar os seus negócios.
— Não se meta nisso, Daphne – a voz da minha mãe quebrou toda a força que eu tinha para lutar contra isso.
Eu já não morava mais naquela casa, então isso não seria problema meu. Eu devia deixá-la cometer esse erro e ir morar na rua só para satisfazer as vontades da sua filha predileta, mas eu odiava injustiças e eu estava cansada de ver Ember sempre se dando bem.
— A senhora vai vender a casa para ajudá-la? – Minha mãe me olhou cheios de lágrimas – ela se gaba de ser uma grande empresária, mas todos sabemos que Ember só tem aquela loja porque o nosso pai a mantinha de pé. E agora que ele morreu, você quer acabar com tudo o que ele deixou.
— O seu pai iria concordar em vender a casa.
O meu rosto caiu ao ouvir minha mãe dizendo aquilo. Naquele momento, eu senti como se o meu coração tivesse sido esfaqueado.
— Ele não ia concordar – falei com a voz embargada – a senhora vai se desfazer da única lembrança boa que restou dele.
— A casa agora é minha e eu faço o que eu quiser – as sobrancelhas de Rosalía estavam franzidas e sua voz altamente irritada – espere eu morrer para que você lutar por alguma coisa, Daphne.
Rosália estava dominada pela dor, certo? Eu entendia isso. Talvez morar naquela casa sozinha fosse difícil para ela, mas não era motivo para que ela a vendesse somente para salvar os negócios de Ember. Eu sentia que, se Rosalía cedesse à pressão de Ember ela iria se arrepender amargamente. Rosália não conhecia a filha que tinha.
— E a senhora vai morar onde? – perguntei, mas ela não olhou para mim.
O olhar de Ember cintilou enquanto ela olhava para mim e assistia à minha centésima derrota. Seu sorriso se alargou até que ela sorriu com uma frieza desenfreada.

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