Prólogo
Me levantei em mais uma segunda-feira e jurei para mim mesma, diante do espelho, que dessa vez iria engatar na dieta. Desde que o meu ex-marido me largou sozinha com o nosso filho para ir viver com a amante, minha autoestima estava reduzida a nada.
Dediquei-me por quase 10 anos ao nosso casamento e à nossa família; por exigência dele, larguei a faculdade, o emprego e todos os planos que um dia havia feito para o futuro, sufocando todos os meus sonhos.
Acabei me descuidando. Vivia sempre frustrada, sem motivação para encarar diariamente a mesma rotina enfastiante e, depois que o nosso filho nasceu, ganhei alguns quilinhos a mais. Desde então, meu ex-marido passou a me humilhar, me chamava de gorda, desleixada, dentre outros xingamentos diários, e dizia ter vergonha de ser visto comigo.
Já se passou mais de um ano e nunca mais tive coragem de me relacionar com alguém. Passei a acreditar fielmente nas coisas ruins que o Robert me dizia, mas estava decidida a virar a página e mudar isso.
Eu havia conseguido um emprego e estava decidida a voltar a me amar. Então olhei para o meu reflexo ali e enxerguei uma mulher cansada, meus cabelos castanhos estavam presos em um coque desgrenhado, e as olheiras fundas revelavam as minhas noites mal dormidas. Analisei o meu corpo rechonchudo, cheio de celulites e estrias que contavam a minha história, além de inúmeras dobrinhas. Capturei uma delas entre o polegar e o indicador, torcendo o nariz.
— Vou me tornar uma nova mulher e provar para o Robert que posso ser tão bonita e sexy quanto a sua amante interesseira.
Preparei-me para ir ao trabalho, uma loja sofisticada de moda feminina e jóias. Coloquei o meu uniforme, que consistia em uma saia midi justa e um blazer social, e calcei um micro salto para diminuir as dores que as horas em pé me causavam. Mas, antes de ir, precisava deixar o meu filho na escola.
O David já conhecia a nossa rotina e, antes mesmo que eu chegasse até o seu quarto para chamá-lo, abriu a porta bruscamente e correu, saltando em meus braços.
— Estou pronto, mamãe! — falou com o sorriso meigo e inocente de sempre.
Sem dúvidas, meu filho era a única coisa boa que o Robert me deu.
— Você já é mesmo um rapazinho! — Falei, organizando os fios salientes de seu cabelo. — Vamos tomar café bem rapidinho, pois a mamãe não pode se atrasar.
Seguimos até a cozinha e preparei um leite com cereal para o David, enquanto pensava no que comeria para começar bem a dieta, sabendo que a força de vontade era a minha pior inimiga. Preparei ovos mexidos e café, utilizando o adoçante ao invés do açúcar.
"Assim está ótimo para começar", pensei, sentando-me ao lado de David.
— Está de dieta de novo, mamãe? — ele perguntou, provavelmente ao perceber que eu não estava comendo os pães, fatias de bolo ou, quem sabe, as inúmeras bolachas doces que eu estava acostumada.
— Sim, mas dessa vez é para valer.
— Sei... Igual das outras dez vezes, isso porque só sei contar até dez.
O pestinha disparou, e não pude deixar de rir, enquanto o agarrava fazendo cócegas.
— Você vai ver só quando a sua mãe estiver bem bonitona e magra!
— Você já é linda, mamãe, muito mais linda do que a namorada chata do papai.
Abri um sorriso sem jeito e mudei de assunto. Afinal, mesmo tendo plena convicção de que não sentia absolutamente nada pelo pai dele, me lembrar que fui trocada por uma moça mais jovem e de corpo escultural ainda doía.
— Vamos, mocinho, chega de conversa fiada, pois já deu a nossa hora.
Após o café da manhã, como era habitual, partimos. Deixei o David na escola e segui direto para a loja. Minha mãe ficava responsável por buscá-lo ao meio-dia, e ele ficava na casa dela, sob os seus cuidados, até que eu retornasse do trabalho, já ao anoitecer.
"Se eu conseguir bater a meta desse mês, talvez sobre algum dinheiro para comprar o presente que prometi para o David." Eu pensava, lembrando que faltava um mês para o aniversário dele e meu ex-marido não me ajudava financeiramente com nenhuma despesa.
Por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de amargurar o meu relacionamento com o pai do meu filho. Afinal, ele vivia uma vida de luxo e exuberância com a outra, enquanto eu estava sempre apertada e trabalhava o dia todo para pagar as contas de casa e garantir sozinha o sustento do David.
— Bom dia, amiga linda! Olha o que eu trouxe pra você! — Samanta, uma amiga do trabalho, chegou me entregando uma vasilha repleta de doces de festa e um pedaço de bolo de chocolate.
— Voltei com a bolsa cheia da festa do meu sobrinho. Sabe como é, né? E como sei que você gosta, resolvi dividir a culpa.
— Só você mesma! — Sorri, já salivando. — Eu amo mesmo… Mas estou de dieta. Inclusive, a senhorita ia me acompanhar nessa... ou já esqueceu?
— Claro que não esqueci, mas festa de criança não é algo que se desperdiça.
— Olá, queridas, como posso ajudá-las? — Uma recepcionista se aproximou com um sorriso simpático, antes que eu conseguisse tomar qualquer atitude e fugir dali.
— Gostaríamos de saber mais sobre os planos de musculação. — Samanta tomou a frente, enquanto eu permanecia absolutamente envergonhada.
A recepcionista começou a explicar como tudo funcionava. Num primeiro momento, até pareceu interessante, mas quando ela falou os valores, eu quase caí para trás.
— Eu não tenho condições de arcar com isso, amiga. — Praticamente berrei, me encolhendo em seguida ao ver algumas pessoas me encarando.
— Nem mesmo o anual? Sai bem mais em conta… — Samanta insistiu.
— Não tenho certeza, e se eu desistir? — Falei, já ciente de que não passaria mais de uma semana naquele lugar, talvez nem dois dias.
— Pode dar um mês de aula experimental para as moças, Rebeca.
Uma voz grossa e imponente falou atrás de nós. Virei-me para ver de onde vinha e entrei em choque com a beleza dele.
— É sobre isso que te falei… — Samanta me acertou o cotovelo, sussurrando em meu ouvido.
Permaneci paralisada diante do homem alto e musculoso parado à minha frente. Ele aparentava ter por volta dos 30 e poucos anos, sua pele morena possuía um bronzeado natural, e cada contorno de sua musculatura saliente ficava perfeitamente à mostra em sua camiseta colada.
— Esse é o Jackson, meninas, o dono da academia — a recepcionista falou, me tirando do transe momentâneo.
— Jack, estas são Samanta e Alicia, vieram conhecer o nosso espaço.
O tal Jackson me fitou com um sorriso presunçoso; eu poderia jurar que notou a forma como o engoli com os olhos sem perceber. Em seguida, cumprimentou Samanta formalmente, estendendo a mão para mim logo depois.
— Prazer, Alicia. Eu serei o seu personal trainer, e você tem um mês para escolher entre desistir ou ficar.

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