Na cafeteria no térreo do hospital, Gina olhava para o movimento lá fora, suspirando suavemente diante do vai e vem das pessoas e carros. Não sabia se deveria dizer que aquilo era absurdo ou apenas obra do destino.
Cidade Âmbar era tão grande, com tantos hospitais… Como era possível que, em duas ocasiões diferentes, acabassem se encontrando? Da primeira vez ela conseguiu evitar, mas na segunda não teve a mesma sorte.
Depois de um longo silêncio, Henrique pigarreou e disse: "Vim aqui resolver um problema de ortopedia. Não esperava te encontrar de novo."
Esse "de novo" soou para Gina como uma mistura de resignação e vontade de rir.
"O Fábio não sabe da minha gravidez." Ela segurava o copo de suco, e mesmo sem muita esperança, pediu: "Você pode guardar isso em segredo para mim?"
Henrique não demonstrou surpresa, apenas perguntou: "Posso saber o motivo?"
A mão de Gina apertou o copo por um instante, mas logo se soltou: "Eu vou me divorciar dele."
Henrique hesitou. Robson já havia perguntado a Fábio sobre isso, e ele negara na ocasião.
"Fábio concordou?"
"Ele vai concordar." O processo de divórcio já estava sendo preparado, quisesse ele ou não.
O silêncio pairou por um momento. Gina ergueu os olhos e, de uma vez, falou tudo o que havia ensaiado: "Henrique, eu sei que você é muito amigo do Fábio e te peço algo difícil. Mas, sinceramente, esse filho está crescendo dentro de mim, eu não consigo abrir mão dele. Agora o Fábio está com a Queen, eles vão formar uma nova família, ter os próprios filhos. Se eles souberem da existência desse bebê, não sei se poderei trazê-lo ao mundo em segurança. Por favor, me ajude, sim?"
Gina talvez não soubesse o quanto seus olhos eram bonitos. Havia uma ternura líquida neles; não era preciso dizer nada, bastava aquele olhar suplicante para despertar nos outros o desejo de protegê-la.
Ninguém resistia àqueles olhos.
Henrique engoliu em seco e, sob o olhar esperançoso dela, assentiu com a cabeça.
…
Fábio gastara muita energia resolvendo a questão de Paulo nos últimos dias. Primeiro, foi ao hospital fazer uma visita protocolar. Paulo estava tão exaltado que, mesmo com o pé enfaixado como uma pamonha, quis avançar para agredi-lo, sendo contido por Gustavo Oliveira.
Gustavo também estava furioso. Seu filho era único, mas, honestamente, o erro havia partido dele. Se fosse outro agressor, Gustavo não teria deixado barato, mas justamente quem agira fora Fábio.
No mundo dos negócios e da política, as relações eram complexas. A Família Marques só chegara onde estava por ter uma poderosa rede de apoio. Gustavo, depois de muito pensar, teve que engolir o prejuízo.
Fábio sabia que a tolerância de Gustavo era temporária; certamente ele guardaria aquilo na memória. Para compensar, Fábio ofereceu à empresa do irmão de Gustavo um contrato de cooperação de longo prazo, cedendo cinco por cento do lucro.
Na prática, Gustavo era o verdadeiro beneficiário da empresa do irmão, embora isso não fosse declarado publicamente. Assim, Fábio acabava lhe transferindo uma grande quantia todos os anos.
Por causa desse dinheiro, o assunto foi encerrado.
Fábio só conseguiu voltar à empresa perto da hora de ir embora. Henrique já o esperava há muito tempo no escritório.
Só então Fábio lembrou que tinham marcado de discutir o investimento no hospital.
"Anda tão ocupado ultimamente." Henrique empurrou o dossiê pela mesa. "Entre trabalho e relacionamentos, realmente não sobra tempo."
Fábio lançou-lhe um olhar gélido: "Aprendeu com quem a ser tão irônico?"
Henrique deu de ombros, sem responder.

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