Olhou para fora, vendo a imagem vibrante da cidade se descortinava diante da janela.
Esteve em Florença há alguns anos, para uma convenção internacional. Hospedou-se no hotel mais caro do centro histórico, tinha motoristas particulares, salas de conferência fechadas, jantares sofisticados.
Nunca caminhou pelas ruas estreitas, nunca atravessou pontes sobre canais charmosos, nunca sentiu o cheiro real da cidade.
Agora, Florença se abria de forma crua e viva, bonita, e apaixonante demais para alguém que não podia se dar ao luxo de aproveitar, e muito menos relaxar.
Ruas de pedra, fachadas antigas, sacadas floridas. O cheiro de café recém-passado misturado ao doce do gelatto, às árvores, aos tomates frescos, ao parmesão e aos queijos expostos nas bancas de pequenos mercados.
Camila puxou o ar devagar, sentindo o peito apertar sem saber exatamente por quê.
A poderosa Camila Camargo, que esteve em Florença antes, ficou para trás.
Aquela mulher não existia mais.
Talvez nunca tivesse existido de verdade. O destino terrível que agora a perseguia foi traçado muito antes de Nina, muito antes de conhecer o amor nos braços do pai de sua filha, muito antes de que pudesse ter escolhas.
O carro avançava por ruas cada vez mais estreitas, e o som da cidade mudava. Menos carros. Mais passos. Vozes altas demais ecoando entre varandas próximas demais umas das outras.
Camila fechou os olhos por um instante.
Não podia simplesmente procurar o pai de Nina e pedir ajuda.
Não.
Ele não a receberia.
O ódio de Ticiano Dutra-Capelli não era algo que pudesse subestimar. Ela o sentiu antes, não como palavras, mas como presença. Um olhar que rasgava sua alma desde então. Um silêncio cru que a punia. Denso. Profundo. Capaz de tirar tudo dela.
Não.
Precisava pensar.
Planejar.
Encontrar uma forma de colocá-lo diante de Nina sem que ele pudesse negar a existência daquela criança… ou decidir que não a ouviria.
Olhou para o rosto adormecido da filha. Nina dormia tranquila, embalada pela manta da comissária. Pequena demais para entender o perigo. Parecia demais com o pai para passar despercebida. Quando Ticiano a visse, aquilo ficaria óbvio.
E o ódio dele poderia se transformar em algo pior, ao saber que lhe foi negado o direito de saber que seria pai.
Mas Camila não se importava com o que aconteceria com ela, há muito tempo isso deixou de ser relevante, desde que Nina estivesse segura, tudo estaria bem.
Mesmo que essa segurança não fosse ao seu lado.
Os olhos se encheram de lágrimas, mas ela não chorou. Não agora.
— Siamo arrivati — anunciou o motorista.
O táxi parou diante de uma fachada de pedras antigas, coberta por trepadeiras de flores púrpura. Uma pequena placa de ferro simples pendia ao lado da porta.
“Pensione della Nonna.”
Camila pagou a corrida e agradeceu em italiano correto. O motorista demorou um segundo a mais do que o necessário antes de fechar o porta-malas. Olhou para ela pelo retrovisor.
Nada disse.
Mas Camila só respirou quando o carro se afastou.
Sozinha, puxou o ar com força, com Nina firme em um braço, a mochila nas costas foi tudo o que sobrou. Atravessou a porta pesada de madeira.
O cheiro a atingiu de imediato. Alho refogado. Azeite quente. Pão fresco.

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