Capítulo 3
Sofia Kim
(Meia hora depois)
Eu não fazia ideia de que uma prisão pudesse ter vista para o mar.
A mansão dos Brown era enorme e ficava bem de frente para o mar escuro de Coconut Grove. Parecia uma fortaleza moderna, cercada de muros altos e seguranças armados por todos os lados. Saí do carro ainda vestindo o mesmo vestido de noiva, todo amassado. O tecido pesado e desconfortável grudava na minha pele.
Richard caminhava à frente, sem olhar para trás.
Assim que entramos no hall principal, não consegui mais segurar a raiva.
— Precisamos conversar, Richard. Tem muita coisa que ainda não entendi, e nem se quer sei onde estão as minhas malas e meus...
— Seu quarto fica à esquerda — interrompeu ele, a voz neutra. — Segundo andar, última porta do corredor oeste.
Não disse mais nada. Apenas subiu as escadas como se eu fosse um incômodo passageiro.
— Você não vai nem conversar? — Eu o segui, pisando duro.
A raiva queimava tão forte que mal prestava atenção nos degraus.
— Olha pra mim enquanto falo, Richard! — No quarto lance, meu pé esquerdo prendeu na barra do vestido, meu corpo desequilibrou para trás.
Por um segundo, o tempo parou, a mão de Richard disparou e envolveu minha cintura com firmeza, puxando-me contra seu peito antes que eu caísse. Meu corpo colidiu com o dele.
"Como ele voltou tão rápido pra me segurar?" Será que estava me olhando quando reclamei?
Por longos segundos, ficamos assim, peito contra peito, meu rosto a centímetros do seu. Senti o calor do seu corpo através da camisa, o cheiro familiar do seu perfume, a respiração quente roçando minha testa. Seus dedos apertaram minha cintura quase possessivamente. Nossos olhares se encontraram. O ar ficou preso na minha garganta.
Eu odiava admitir, mas Richard sempre teve uma beleza irritante. Quanto mais frio parecia...
Mais impossível era ignorá-lo.
Tem um nariz discreto que combina perfeitamente com o volume da boca. Seus olhos parecem desenhados.
Por um instante, pareceu que ele ia me beijar, mas nada aconteceu. Levei a mão até seu rosto devagar.
— Talvez não seja tão frio quanto parece... — deixei escapar. Então antes que minha mão o tocasse — tão rápido quanto me segurou, ele me soltou.
Sem uma palavra, nenhuma expressão. Apenas retirou a mão como se tocar-me tivesse queimado sua pele.
Então foi só um reflexo...
— Presta mais atenção nos próprios pés — e continuou subindo as escadas.
Fiquei parada por dois segundos, o coração disparado, antes de conseguir me mover novamente.
Grosso.
Cheguei ao quarto e bati a porta com toda a força. Quando me virei, o ar ficou preso em meus pulmões mais uma vez, mas por um motivo completamente diferente.
Dentro era exatamente como eu descrevia aos quinze, dezesseis anos, quando ainda sonhava que um dia teria um espaço só meu. Um piano de cauda preto brilhava perto da varanda aberta. Prateleiras embutidas exibiam primeiras edições de clássicos russos — Tolstói, Dostoiévski, Tchékhov e os volumes de poesia que eu escondia debaixo da cama.
Flores brancas (lírios e rosas) estavam dispostas em vasos altos por todo o ambiente, exatamente como eu gostava. A varanda dava para o mar, com uma poltrona antiga de leitura posicionada perfeitamente para ver o horizonte.
Tudo tinha sido preparado com cuidado obsessivo..., mas porque se ele me odeia?
Toc-toc — ouvi batidas na porta.
Quando abri, uma mulher de meia-idade, com uniforme impecável, entrou carregando uma bandeja.
— Boa noite, senhora Brown. Sou Elena, a governanta-chefe.
Ela colocou a bandeja sobre a mesinha de centro e sorriu com gentileza.
— Eu não pedi nada. Porque essa comida?
— O senhor Brown pediu que eu trouxesse isso. Disse que a senhora fica extremamente irritada quando passa muitas horas sem comer.

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