— Sim, senhor.
O funcionário estava prestes a levar a roupa quando o homem falou novamente:— Deixe aí. Lave-a e guarde-a.
— Perfeitamente.
Adonias olhou ao redor. O quarto estava impecável. Exceto pela cama, que trazia marcas de ter sido usada, ela não parecia ter tocado em mais nada.
Na bancada do banheiro, dois longos fios de cabelo lembravam que seu espaço privado fora visitado por uma mulher.
Desviou o olhar, que acabou pousando no roupão que Camille usara. Seus olhos escureceram com uma emoção complexa.
Na empresa, Camille retocava a maquiagem quando recebeu uma ligação da mãe.
— Camille, venha jantar em casa hoje.
Ao ouvir a palavra "casa", um sorriso de escárnio curvou os lábios de Camille. Nascida em uma família que priorizava os filhos homens, ela nunca sentira o calor de um lar.
Depois que seu pai, Francisco Miranda, adoeceu, a família a despachou junto com o pai para a casa da avó, tudo para preparar o terreno para a chegada do irmãozinho recém-nascido.
Camille respondeu friamente:— Tenho trabalho na empresa, vou fazer hora extra. Não poderei ir. Podem comer sem mim.
— Sua avó disse que está com saudades. Considere isso uma visita a ela.
A avó já era idosa. Na tentativa de juntar dinheiro para o tratamento do pai de Camille, trabalhara excessivamente até cair da escada e machucar a perna.
O movimento de Camille ao passar o batom foi brusco demais, borrando o contorno dos lábios.
Sua expressão mudou, e ela sussurrou com a voz contida pela raiva:— Para que você a trouxe? Você sabe que ela tem dificuldade de locomoção, ela...
— Justamente por ela ter dificuldade é que a trouxe para se recuperar bem aqui em casa. Comprei os pratos que você gosta. Lembre-se de voltar cedo.
A ligação, que mais parecia uma ameaça, foi encerrada. A sombra no olhar de Camille ainda não havia se dissipado quando uma voz indiferente soou perto de seu ouvido:
— Seu batom borrou.
Camille ergueu os olhos e seu olhar encontrou o do homem no espelho.
Os olhos dele eram calmos e profundos, como se estivessem cobertos por uma névoa fria que ninguém conseguia penetrar.
Ao ver o traço vermelho puxado para fora do lábio, o rosto de Camille corou violentamente.
Será que ela estava num inferno astral? Por que todas as suas cenas humilhantes tinham que ser presenciadas por Adonias Macedo?
— Senhor Macedo.
Ontem ele era seu chefe inatingível, da noite para o dia, tornara-se seu marido no papel.
— Senhor Macedo, seu café. — Ela baixou a cabeça ao deixar a xícara, os longos cílios escondendo o nervosismo em seu olhar.
— Camille, café só para o seu Senhor Macedo? E para mim?
Uma voz zombeteira soou.
Só então Camille notou o homem parado junto à janela panorâmica. Tinha olhos de quem flertava até com a sombra, o tipo que, segundo sua amiga, olhava apaixonadamente até para um poste.
Roberto Moreira abriu os braços e caminhou em direção a ela.
— Ficou muda? Foi ofuscada pela minha beleza hoje?
O homem vestia-se no estilo *old money*, com uma elegância despojada, mas aos olhos de Camille, ele parecia um daqueles executivos perigosos de filmes de máfia.
Camille afastou a imaginação fértil. Juntou as pernas, endireitou a coluna, cruzou as mãos à frente do corpo e disse com educação distante:— O que o Senhor Moreira gostaria de beber?
Roberto colocou a mão no ombro de Camille, com um sorriso malicioso nos lábios:— O que eu bebo não importa. O importante é o que eu quero...
Ele se inclinou e sussurrou no ouvido dela, com ar de ambiguidade:— Você não quer ser minha secretária?

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