Ela estava tão focada em reconhecer a filha e tão imersa nas fortes emoções que tinha se esquecido completamente de que sua filha já tinha vinte e cinco anos e muito provavelmente já era casada.
O coração de Patrícia sofreu mais uma pontada. A sua filha crescera e havia se casado.
Ela perdera o seu nascimento, o seu crescimento, a vida escolar, os primeiros amores, o casamento...
Perdeu exatamente vinte e cinco anos da vida dela.
Gabriel também só se lembrou disso agora. Da última vez que se viram em Paris, a filha estava acompanhada pelo seu parceiro.
Aquele homem parecia muito maduro, possivelmente bem mais velho que a filha.
Bianca assentiu sem dar muitos detalhes, pegou o celular, caminhou até a varanda e ligou para Marcelo.
— Marcelo, você está ocupado?
— Não, pode falar — Marcelo fechou a pasta que tinha nas mãos e encostou-se na cadeira.
— Os meus pais biológicos trouxeram o resultado do exame de DNA e vieram me procurar em casa. Eles são a Senhora Patrícia Lacerda e o Senhor Gabriel Ribas. O Senhor Ribas é aquele que conhecemos em Paris, o tio da Emma.
O olhar de Marcelo tornou-se repentinamente profundo.
Como o esperado.
Batia com as pistas que ele havia descoberto.
— Você está bem? Precisa que eu volte agora?
— Não, eu estou bem — Bianca balançou a cabeça, espiando os pais inquietos na sala de estar através da porta de vidro.
— Eles me contaram o que aconteceu na época. A minha mãe teve que me deixar num orfanato por alguns motivos, mas ia me visitar com frequência. Mais tarde, tentou me levar para casa como filha adotiva, mas não imaginava que eu havia sido trocada. A criança que ela levou era de outra pessoa, deu a ela o nome de Wilma e a criou com todo o mimo do mundo por mais de vinte anos.
— A minha mãe também foi uma vítima. Ela parece muito triste e com muita vontade de compensar os erros — a voz de Bianca falhou um pouco.
— Sim, é a natureza humana — disse Marcelo. — Vou tentar voltar mais cedo na hora do almoço.
— Certo, dirija com cuidado.
Após desligar, Bianca retornou à sala.
Ao terminar de falar, ela percebeu que o rosto de Patrícia ficara completamente pálido.
— M-mãe... Senhora Lacerda? — Bianca levantou-se para ampará-la.
— A pessoa para quem você vai doar... está na capital? É a Wilma? — perguntou Patrícia, segurando a mão da filha com a voz trêmula.
Bianca congelou.
Os funcionários do banco de medula, de fato, haviam mencionado que o paciente era da capital.
Wilma...
Patrícia acabara de contar que a garota, que ela havia criado acreditando ser a sua filha, também estava na capital, também adoecera e também precisava de células-tronco.
Seria possível que o mundo fosse tão pequeno?
— O banco de medula tem regras estritas, não pode revelar as informações dos pacientes — a voz de Bianca saiu um tanto rouca. — Por isso, eu não sei o nome.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O Preço do Amor