(Ponto de Vista de Lucas)
O som inesperado do telefone quebrou o silêncio, fazendo com que Olivia afastasse os olhos da janela e buscasse o aparelho dentro da bolsa, de onde o retirou para, em seguida, olhar a tela antes de atender.
— Alô? — Sua voz soou suave, controlada, ainda que eu soubesse que o turbilhão de emoções a consumia por dentro.
Observei sua expressão mudar e, ao mesmo tempo, um lampejo de algo, fosse dor ou esperança, atravessou-lhe o rosto.
— Sim, Clara. Entendi. Estou indo agora mesmo. — Disse, com a voz embargada. — Obrigada por ligar.
Ela encerrou a chamada e permaneceu encarando o aparelho por um momento, com os nós dos dedos brancos de tanto apertá-lo.
— Está tudo bem? — Perguntei, mantendo o tom gentil.
— Quem ligou foi Clara Wilkins, do Estúdio de Cerâmica Uivo do Barro. — Explicou Olivia, erguendo por um instante os olhos esmeralda para os meus. — Ela avisou que a caneca da Lily... Da Lily está pronta para ser retirada.
A dor ainda tão viva se revelou no tremor de sua voz quando pronunciou o nome da filha, e eu não pude deixar de notar.
— Quer que eu a leve até lá? — Ofereci, já sinalizando para Thomas Griffin alterar a rota.
Houve apenas um aceno de Olivia, mas o cheiro de sua loba se modificou, exalando a dor da perda, o peso da saudade e, além disso, uma centelha de firmeza.
— Sim, por favor. — Sussurrou. — Gostaria de ir agora.
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(Ponto de Vista de Olivia)
O sino acima da porta do Estúdio de Cerâmica Uivo do Barro tilintou suavemente quando entramos, e o cheiro familiar de argila e esmaltes invadiu minhas narinas, trazendo consigo uma enxurrada de lembranças: as pequenas mãos de Lily cobertas de barro, e sua língua entre os dentes em concentração enquanto trabalhava.
Clara Wilkins ergueu o olhar do balcão, e seu rosto bondoso iluminou-se em reconhecimento, já que a loba idosa sempre tivera um dom especial com os filhotes que frequentavam o estúdio.
— Olivia! Que bom que conseguiu vir tão rápido! — Comentou, limpando as mãos no avental enquanto se aproximava. — Onde está a nossa pequena artista? Não veio com você?
Um aperto me sufocou por dentro, dado que Clara permanecia alheia. "Como poderia saber? Eu não retornava ali desde que Lily…"
— Ela está... Por perto. Ainda não a busquei. — Menti, incapaz de revelar a verdade a essa mulher tão gentil. Pelo menos não ali… Não naquele momento.
— Ela tem o espírito firme de uma verdadeira lobinha. — Continuou Clara, sem notar meu sofrimento, enquanto se inclinava sob o balcão. — Essa caneca foi fruto de dois meses completos de trabalho dela! A maioria dos jovens lobinhos da idade dela teria desistido já no início, mas a sua Lily resistiu.
Ela desembrulhou com cuidado um pacote, retirando camadas de papel de seda, e explicou:
— O objetivo dela era deixar tudo perfeito para o aniversário do pai. Por isso, não aceitou a minha ajuda e declarou que precisava ser uma obra somente dela.

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