Ele tirou imediatamente o próprio paletó, querendo colocá-lo sobre os ombros de Ariane, mas tal gesto a assustou, fazendo com que ela recuasse um passo no mesmo instante.
As mãos do homem, segurando o paletó, ficaram suspensas no ar, mantendo-se numa posição constrangedora e amarga.
A expressão de Helder ficou tão rígida quanto seus dedos, e seu rosto escureceu de raiva. Ele não havia imaginado que Ariane realmente se afastaria dele.
Recolheu as mãos, amassando o paletó até deixá-lo amarrotado, enquanto as veias em sua testa saltaram, incontrolavelmente.
Ele fixou o olhar no rosto radiante de Ariane, e, com um sorriso forçado, falou: “Veio atrás do Bernardo de propósito só para me deixar com ciúmes?”
O tom irônico fez Ariane franzir o cenho.
“Você está bem?”
Helder quase achou graça da reação dela, de tão irritado que ficou.
“Foi divertido participar da festa com o Bernardo? Está tão ansiosa para se divorciar, Ariane, que acha mesmo que eu vou tentar te reconquistar? Ou pensa que você tem algum valor especial para mim?”
As palavras dele deixaram Ariane atordoada; o que estava acontecendo com ele? Já fazia tempo que não usava salto alto e, agora, com aqueles saltos finos, seus pés estavam doendo demais. E ele ainda se prolongava naquela discussão sem sentido.
Com um olhar sereno, mas cheio de desdém, Ariane fitou Helder, sem sequer cogitar responder a qualquer uma de suas perguntas.
Diante dessa reação, Helder ficou completamente desorientado.
Em outras discussões, ela chorava de cortar o coração, com os olhos vermelhos, perguntando se ele não poderia dar-lhe mais atenção, desejando que ele se importasse mais com ela.
Agora, porém, ela apenas o olhava de modo apático, sem vontade alguma de dizer uma palavra a mais, como se estivesse desperdiçando seu tempo.
Aquela maneira de encará-lo, como se ele fosse um estranho, feriu profundamente Helder. Ele não conseguia aceitar essa nova Ariane.
Pela primeira vez na vida, Helder foi chamado de medíocre por alguém. Ele era o orgulho da família, herdeiro dos Botelho, alguém com quem muitos na Celestina do Sol sonhavam em se aliar.
“Eu sei que você me culpa, mas, Ariane, já te disse várias vezes que sou muito ocupado. Por que você não pode ser mais compreensiva, me entender?”
Ariane não queria mais ouvir as loucuras de Helder; acreditava que ele deveria procurar um psiquiatra para investigar possíveis delírios.
“Helder, solte minha mão. Tem gente passando por aqui o tempo inteiro. Se você não se importa em passar vergonha, eu me importo. Não há mais nada entre nós e aquela história de você sair espalhando boatos sobre mim ainda está pendente!”
O olhar de Ariane, carregado de desprezo, reacendeu sentimentos confusos e contraditórios em Helder. Sempre fora orgulhoso e jamais considerara Ariane alguém importante, vendo-a apenas como uma mulher insistente. Se não fosse pelo fato de ela ter usado a herança dos pais para ajudá-lo no passado, jamais teria dado atenção a alguém tão apaixonada e dedicada.
Porém, agora...
Aquela mulher que antes o perseguia obstinadamente, agora o olhava com total desdém; seu olhar e suas expressões eram frios, ansiosa por traçar uma linha definitiva entre eles.

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