Era um dia de verão escaldante.
Ângela Kins enxugou o suor da testa, colocou a sopa de frango em um recipiente térmico e foi para o Hospital Mercy.
Ao chegar à enfermaria, ela ouviu uma conversa vinda de uma das alas.
“Mãe, como peguei essa doença? Se eu não encontrar logo um doador de rim, morrerei! O que devo fazer?”
Quem falava, era sua irmã adotiva, Fernanda Kins. Ela segurava um relatório de exame enquanto se desabava em lágrimas.
Sua mãe, Scarlet Square, tentou consolá-la dizendo: “Calma querida. Jonas é médico. Tenho certeza de que ele encontrará um doador para você em breve.”
O Jonas mencionado era um dos irmãos de Ângela.
“Tenho medo de não conseguir esperar tanto tempo. Ainda sou jovem, tenho filhos para criar, e ainda não cuidei de você adequadamente, eu…” Fernanda hesitou, mas suas palavras eram claras: ela não queria morrer.
Após suportar tantas dificuldades, creio que ainda há dias bons pela frente. Como eu poderia morrer logo agora?
Scarlet se sentiu desolada.
Minha menina está com uma doença tão grave e, mesmo assim, pensa mais nos outros do que a minha filha legítima.
De repente, uma ideia a atingiu, e seus olhos se iluminaram.
“Já sei! Ângela tem câncer gástrico e já está em fase terminal. Por que não conversamos com ela para que te doe um rim? Dessa forma, ela finalmente poderá fazer algo pela família.”
Fernanda obteve a resposta que queria, mas ainda fingiu se preocupar. “Duvido que concorde, e não será fácil explicar aos meus irmãos, também.”
Scarlet segurou sua mão e a tranquilizou: “Apenas se concentre na cirurgia. Seus irmãos te amam muito, então eles não vão se opor. Quanto a Ângela, eu tenho um plano.”
De pé na porta, Ângela ouviu a conversa lá dentro e sentiu como se tivessem jogado um balde de água fria sobre a sua cabeça.
Ao longo dos anos, como era recém-chegada a esta família, ela fez de tudo para agradá-los. Além de trabalhar incansavelmente, os bajulou ao máximo, mas tudo o que recebeu em troca foi uma grande falta de consideração.
Quando tinha dez anos, a Família Kins descobriu que ela e Fernanda haviam sido trocadas na maternidade. Com isso, eles a acharam e a trouxeram de volta para casa.
Todos pensavam que os dias bons estavam prestes a começar, no entanto, devido à diferença de ambiente, foi difícil para Ângela se integrar.
Ela se tornou cautelosa e trabalhou arduamente para agradar cada membro da família. Embora não tenha ganhado o seu reconhecimento, ela conseguiu manter um relacionamento relativamente harmonioso com os Kins.
Ângela tinha quatro irmãos mais velhos, todos excepcionais, porém, eles mimavam muito Fernanda. Sempre que havia uma briga entre as duas, a família a culpava e exigia um pedido de desculpas, mesmo que na maioria das vezes fosse inocente.
Se Fernanda cometesse um erro, ou esbarrasse em algo, a culpa caia em cima de suas costas. Parecia até que ela era a filha legítima e não o contrário.
A Família Kins foi uma das primeiras a se aventurar nos negócios no bairro, então sua situação financeira era ótima. No entanto, à medida que mais pessoas fizeram o mesmo, eles começaram a enfrentar dificuldades financeiras.
Uma mãe pedindo à filha legítima para se sacrificar pela adotiva. O médico disse que descobri cedo e, com o tratamento adequado, posso ser curada, mas minha própria mãe deseja a minha morte! Pior de tudo, ainda está afirmando que sou insensível! Que ridículo!
Fernanda pegou tudo o que originalmente me pertencia. Primeiro, o amor da minha família. Depois, tomou meu noivo Christopher, que junto de um dos meus irmãos, levou minhas ações na empresa. Agora, não querem nem poupar a minha vida!
Scarlet correu rapidamente para baixo, seu rosto ficou pálido de medo. No momento seguinte, suas palavras atingiram o coração de Ângela mais forte do que a dor física.
“Cair de uma escada tão alta, não afetará a qualidade de seus rins, certo? Com tanto sangue sendo vomitado, você provavelmente não sobreviverá. Isso é bom, no entanto. Fernanda poderá ser curada!”
Ao ouvir isso, Ângela a encarou com os olhos arregalados.
Mesmo morrendo, seu ódio e relutância impossibilitariam para ela descansar em paz.
…
Quando Ângela abriu os olhos novamente, sentiu-se fraca e lutou por um tempo antes de finalmente perceber onde estava.
Havia uma parede cinza adornada com uma cruz vermelha e uma mesa um pouco velha ao lado da cama. Um forte cheiro de remédio invadiu suas narinas, tornando sua cabeça, já latejante, ainda mais pesada.
Ué! Eu não caí das escadas e morri? Por que estou em um quarto de hospital?
De repente, a porta foi aberta com força, fazendo com que a poeira na parede caísse continuamente.
Então, um grupo de pessoas entrou.
Um deles era seu pai, Jorge. Ele a olhou e questionou: “Ângela, por que permitiu que aqueles valentões machucassem Fernanda? Você não sabia que suas ações poderiam ter colocado a vida dela em perigo?”

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