— Que tipo de pessoa você é, espionando pelos cantos?
— Se elas estavam debatendo sobre ações e você aparece hoje com um notebook a tiracolo, as duas pontas da linha não são tão difíceis de conectar, são?
A intuição daquele garoto era monstruosamente afiada.
Carlos era um bom rapaz. Tainá lembrou-se de que ainda lhe devia um favor (da vez em que ela batera no herdeiro valentão e Carlos usara a força da família para limpar a bagunça).
Já que o disfarce havia despencado, por que não aproveitar para quitar aquela antiga dívida de lealdade?
— Já que seu cérebro já montou as peças, eu estou analisando uma ação muito específica de alto retorno. Se estiver interessado, deposite suas economias na minha conta e eu as gerencio. Contudo, fique avisado desde já: o mercado não tem pena. Se o dinheiro virar cinzas, arque com os riscos silenciosamente.
— Relaxa. Se perdermos tudo, encaro como se o dinheiro tivesse caído de um buraco no bolso.
O moleque era destemido e eficiente. Naquela exata cadeira, destravou o aplicativo bancário e transferiu 500 mil diretamente para o celular dela em dez segundos.
— Então, qual é o nome dourado do papel?
— Confidencial! O que foi? O medinho já bateu?
— Não é medo, é a falta de justiça cósmica. Coisas maravilhosas não deveriam ser jogadas ao vento para todo mundo aproveitar?
*Vai sonhando com filantropia!* Se o peso brutal dos bilhões da Família Xavier invadisse aquela ação específica, os tubarões fariam uma carnificina e colheriam todos os ganhos sem deixar um centavo para os novatos.
— Esquece que eu falei com você.
— Tainá, tem uma coisinha que eu sempre quis sugerir... não sei se devo.
— Então não sugira.
— Que tal você ser minha noiva? — O garoto jogou o charme sem nem piscar, com um sorriso insolente.
Os olhos de Tainá dobraram de tamanho.
— O que você está dizendo? Que absurdo! Não vou namorar enquanto não terminar o ensino médio. Vai embora daqui, some da minha frente! A Ana já está voltando!
A presença prolongada do "Senhor Popular" debruçado sussurrando bobagens na sua mesa já começara a atrair olhares curiosos dos alunos que passavam.
Sem surpresas, ao lançar os olhos sobre os ombros, Tainá deparou-se com o olhar fixo e frio de Henrique Alves, pregado na direção deles.
Ignorando a nuvem dramática ao seu redor, Tainá dispensou Carlos Xavier com um gesto de mão enxotando uma mosca e afundou o rosto nos livros preparatórios de gramática. Seu cronograma diário não permitia novelas adolescentes.
O sinal tocou.
O Professor Fábio Rocha varreu a sala como uma tempestade poética, dissecando as obras de literatura com paixão avassaladora. Ele intercalava metáforas históricas com episódios de crônicas raras.
Tainá freou, fuzilando os arredores com o olhar. Ninguém por perto.
— Abaixa o tom de voz, sua idiota inconsequente! Quer alugar um carro de som para gritar na rua também?! Você e a Débora berraram o assunto pelos corredores! Tem noção de que já vieram me arrancar verdades hoje cedo, não tem?
— Eu e a Débora? Como assim?
— Eu vou usar o computador do professor unicamente para processar as provas dele. Eu sou uma aluna monitora superdedicada. O outro assunto é da minha vida privada e farei em meu tempo livre quando e se for possível — disparou Tainá com secura.
Como a lealdade entre as três era inquestionável, Tainá abria o jogo e soltava farpas cortantes sabendo que não ofenderia; era um senso de proteção bruto.
Francamente... Na noite anterior, Tainá as proibiu de citar o evento com terceiros. As garotas até podiam fofocar asneiras para o vento se estivessem no quarto escuro de casa, mas nos corredores fofoqueiros do colégio? Falta de noção pura.
Luna era um doce de pessoa e possuía uma moral digna, mas, se tratando da retenção de segredos na ponta da língua... era um vazamento puro.
Se Tainá declarasse agora que quem descobrira a falcatrua havia sido Carlos Xavier, a tonta correria para a sala em modo de ataque e exigiria saber como ele ousara escutá-las.
E, com isso, as suspeitas estourariam perante dezenas de adolescentes hormonais desocupados e faladores, criando um tsunami incontrolável.
Como diabos uma adolescente que ainda estudava o ensino médio e cantava nas horas vagas estava de repente esmagando o crânio dos tubarões da bolsa de valores? Soaria absurdamente mágico e atrairia escrutínios sombrios da sociedade.
O que era ainda pior: isso sujaria fatalmente a honra intacta de Fábio com boatos cruéis de subornos e favoritismos pecaminosos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Renascida e Desalmada: Meus irmãos imploram por perdão