" A descoberta "
Liara Ferraz
Estou vivendo os dias mais intensos da minha vida. Acabei de ser promovida no trabalho ao qual me dedico com todo amor. Finalmente sairei do cubículo onde iniciei para ter minha própria sala na Milênio Arquitetura. Todo o esforço e horas extras foram recompensados. Com meu casamento marcado para o fim de semana, minha chefe me deu a notícia maravilhosa: na volta da lua de mel, o novo cargo será meu.
Hoje é sexta-feira, meu último dia como assistente e minha despedida de solteira. Exausta, dispensei festas. Alex, minha melhor amiga, madrinha e irmã de criação, resolveu fazer uma noite do pijama no meu quarto. Somos inseparáveis há dez anos, desde que meu pai se casou com a mãe dela, Norma. Bebemos vinho e conversamos até o sono chegar.
Ao acordarmos, fomos para o salão de Norma. Passei o dia lá, mas Alex saiu cedo para conferir a decoração da festa; ela sonha em ser organizadora de eventos e cuidou de cada detalhe. Troquei mensagens com meu noivo, Cris, o dia todo para aplacar a ansiedade. Paramos duas horas antes da hora marcada para cerimônia, seguindo o pacto de só nos vermos novamente apenas no altar.
A gente se conhece desde a infância e namoramos há oito anos. Ele conhece meus sonhos melhor que ninguém. Abri mão de um estágio na Itália quando me formei para ficar com ele, já que Cris não havia passado na seleção. Foi difícil, mas eu não queria um relacionamento à distância. Ele me pediu em casamento logo após minha especialização em paisagismo. Guardei o sonho europeu na caixa e foquei na vida em São Paulo.
cheguei mais cedo ao local da cerimônia com minha madrasta para encontrar meu pai. Não conseguíamos falar com Alex, apesar das inúmeras ligações que fizemos. O local, uma propriedade enorme com gramado ao ar livre, ainda estava vazio. Preocupadas, após olhar em volta e não ver ela, decidimos procurá-la na área onde guardavam as decorações.
— Filha, ouviu esse barulho? — Norma parou. — Parece alguém gemendo.
— Chame ajuda, eu vou na frente — respondi, o coração na boca.
O medo de que algo tivesse acontecido com minha irmã me paralisou por um segundo. Perdi minha mãe em um acidente de trânsito quando criança, levou anos até eu parar de sonhar com ela gemendo no chão e situações de emergência me causam gatilhos, tive várias crises de ansiedade. Ao tocar a maçaneta, congelei. A voz lá dentro era de Cris. Comecei a hiperventilar.
— Aiiii, mais forte, amor…
— Você gosta assim, né, vagabunda? Com força.
Minhas mãos tremiam e meus olhos ardiam. Abri a porta de uma vez. A cena passou em câmera lenta: Cris estava possuindo minha irmã contra a parede. O grito que ouvi talvez tenha saído de mim. Tudo ficou vermelho. O choque nos olhos deles foi imediato; ele se afastou dela tão rápido que o som dele saindo de dentro dela ecoou no silêncio do cômodo.
Joguei tudo o que vi pela frente neles, estérica. Alex tentava cobrir os seios enquanto Cris vinha em minha direção, jurando que "não era o que parecia".
— Amor, calma! Foi uma despedida, uma última vez. Eu juro que depois do casamento nunca mais ia comer ela.
— Irmã, me perdoa!

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