Lorena Azevedo
Estava varrendo a cozinha da Tati, enquanto Miguel assistia um desenho na sala, quando o celular tocou.
Vibrou uma, duas, três vezes.
Peguei o aparelho com medo. Era número desconhecido.
Coração disparou.
Atendi.
— Alô?
— Lorena Azevedo?
— Sim, sou eu. Quem fala?
— É a Marta. Da cafeteria onde você deixou o currículo hoje de manhã. Você tem um minutinho?
O mundo parou. Literalmente.
Olhei pro chão. Olhei pra vassoura. Olhei pra Miguel.
E meu peito se apertou.
— Claro! Tenho sim!
— Então... eu sei que o mercado tá difícil, mas tem uma vaga aberta pra atendente. A pessoa que tava comigo pediu demissão agora à tarde. É uma loucura, eu sei, mas... lembrei de você. Da forma como me olhou. Como falou. Você precisava. E, olha, às vezes a gente precisa dar uma chance pra quem quer muito trabalhar. O que você acha?
Eu engoli em seco.
— Eu... eu aceito! Eu aceito sim, dona Marta! Muito obrigada. Nossa... muito obrigada mesmo!
— Pode vir amanhã às oito? A gente acerta tudo pessoalmente.
— Estarei lá.
— Ótimo. Traz seus documentos. E Lorena...
— Sim?
— Erga essa cabeça. Você tem jeito de quem já caiu muito. Mas também tem força de quem sabe levantar.
Desliguei.
Fiquei ali. Em pé. Com a vassoura parada. Os olhos marejando.
Eu consegui.
Uma chance.
Uma porta.
Uma luz.
Depois de tanto não... finalmente, um sim.
— MÃÃÃE! Tá tudo bem? — Miguel correu até mim, me olhando assustado.
Me abaixei, abracei ele com força e sorri.
— Tá tudo bem agora, filho. A mamãe conseguiu um trabalho.
Ele abriu um sorriso enorme e começou a bater palmas, pulando.
— Sério? Então a gente vai ter nossa casa de novo?
— Logo, logo, meu amor. Mas por enquanto... vamos comemorar com brigadeiro!
Ele gritou um "Obaaaaa" e saiu correndo pra pegar a colher.
Eu ri. Chorei. Ri de novo.
Era só um emprego. Mas pra mim... era recomeço.
Mais tarde...
Tati entrou no quarto com duas roupas nas mãos, um sorriso malicioso e olhos brilhando.
— Hoje a gente comemora, meu bem!
— Com brigadeiro, já comemorei com o Miguel — respondi, ainda abraçada no travesseiro.
— Brigadeiro é ótimo. Mas o que você precisa é de uma bebida forte, uma música alta e alguém que te olhe como se você fosse feita de pecado.
— Tati...
— Lorena, por favor! Só hoje. Só essa noite. Você não precisa fazer nada, só... se permitir. Dançar. Rir. Esquecer um pouco da merda que foi tua vida nos últimos três anos.
— Eu tenho que acordar cedo amanhã. Começo no trabalho novo às oito.
— E vai acordar linda e plena, com história pra contar. Eu te juro. Vai ser leve. Só nós. Só risada. E, quem sabe... um pouco de diversão.
Você merece se sentir viva, amiga.
Suspirei.
A vontade de dizer não era grande. Mas a vontade de esquecer a dor... era maior.
— Eu ainda carrego culpa, Tati. Você sabe.
Eu destruí meu casamento.
Ela sentou do meu lado, pegou minha mão.
— Você conversou com outro homem, Lorena. Conversou. Porque o Paulo te tratava como invisível. Como móvel de casa.
Você procurou afeto. E ele usou isso pra te punir por três anos.
A culpa não é só sua. E mesmo que fosse... você já pagou. Já sangrou. Já se arrastou.
Agora é hora de viver.
De recomeçar.
Olhei nos olhos dela.
Aquela mulher louca que largaria tudo por mim se eu pedisse.
Que me acolheu com filho e tudo.
Que não me julgou.
— Tá bom.
— Eu vou.
— AAAAAMOOOOOOO! — ela gritou, se jogando em cima de mim. — Tu vai sair do luto e entrar no deboche! Vou te deixar tão gata que até o garçom vai pedir teu número!
Rimos juntas.
E ali, entre rímel emprestado, perfume barato e um vestido da minha amiga justo demais, eu comecei a lembrar que existe vida além da dor.
Mal sabia eu que, naquela noite...
meu passado ia arder.
E meu futuro... ia me morder.
Com voz grossa, olhar de bicho e mãos grandes.
(***)
O salto apertava um pouco, mas quem se importava?
Algo muito... sólido.
Dei um passo pra trás, ajeitei o vestido e ergui o rosto.
O que vi me fez esquecer como se respira.
Um homem.
Mas não qualquer um.
Um colosso.
Alto. Forte. Ombros largos. Camisa social preta semiaberta, revelando parte do peito bronzeado e salpicado de pelos.
Braços tatuados. Mandíbula marcada.
E olhos... meu Deus, aqueles olhos.
Negros. Profundos. Selvagens.
— Olha por onde anda — ele disse, com a voz muito grave, rouca e grossa o suficiente pra derreter meu batom.
Por um instante, eu fiquei muda.
Depois, talvez por impulso. Talvez por álcool.
Talvez por Tati na minha cabeça repetindo:
"Você é um tesão dos infernos."
Eu... sorri.
— Aprende a não ocupar tanto espaço— respondi, sem saber de onde tirei aquela ousadia.
Ele arqueou uma sobrancelha. O olhar ficou mais escuro.
— Aí eu vou dizer que tá brincando com coisa perigosa.
Me aproximei mais.
Senti o cheiro dele. Amadeirado, quente, quase animal.
Minha mão... foi por conta própria.
Deslizei os dedos sobre o peitoral dele, sentindo os músculos rígidos sob a camisa.
Ele não se mexeu. Só ficou ali. Olhando. Com os olhos em brasa.
— Gosto de perigo... — sussurrei.
Meus dedos desceram mais. Pela barriga firme. Pelo cinto.
Parei pouco antes de onde a coisa toda claramente começava a reagir.
A respiração dele pesou.
Os olhos baixaram pro meu decote. Voltaram pros meus lábios vermelhos.
E ele disse, com a voz arrastada:
— Se continuar com essa mão aí...
vou te arrastar comigo pro inferno.
E lá não tem como pedir pra parar.
Senti um arrepio subir pela espinha.
E sorri.
Porque, naquele momento, eu queria que ele me queimasse inteira.

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