Uma chuva torrencial caiu durante a noite.
Helena rolava na cama, incapaz de dormir, enquanto as memórias da convivência com Jorge ao longo daquele último ano passavam como um filme em sua mente.-
Os avôs dela e de Jorge eram amigos de longa data, e as duas famílias se visitavam com frequência, então ela já conhecia Jorge desde muito pequena.
Aos oito anos, Jorge já se portava com a seriedade de um adulto.
Vestia sempre terninhos pretos sob medida, mal sorria para a sua pouca idade, e parecia alheio e distante, como se nada despertasse seu interesse.
Sempre que a encontrava, a garotinha de cinco anos grudava nele, exigindo companhia.
O instinto cavalheiro inato de Jorge o fazia ficar ao seu lado com paciência, cuidando dela.
Em certa ocasião, após cair no lago por pura travessura e quase se afogar, fora Jorge quem saltara nas águas geladas para salvá-la, fazendo até respiração boca a boca.
Naquele dia, ao abrir os olhos através da névoa da inconsciência, Helena achou ter visto um anjo.
Mais tarde, com a morte dos pais em um acidente de carro, ela se tornou um fardo para a família Almeida.
Após ser levada pelos avós maternos para morar no interior, nunca mais voltou a Arboleda e nunca mais viu Jorge.
Até que, há um ano, seu tio viajou de madrugada até a cabana onde ela morava para encontrá-la.
Os outros acreditavam que ela havia aceitado se casar com Jorge porque se cansara da vida humilde no campo e ambicionava riqueza e status.
Apenas ela sabia como o seu coração batera forte naquela noite, há um ano, quando escutou que seria a esposa dele.
No entanto, Helena também tinha plena consciência de que tudo não passara de um lindo sonho concedido por Deus.
E, agora, era chegada a hora de acordar.
Do lado de fora, a tempestade rugia com ventos furiosos, raios e trovões.
Aninhada debaixo das cobertas, sua mente foi se acalmando aos poucos.
Na manhã seguinte, Helena foi despertada pelo toque do celular.
— Que horas são e você ainda está dormindo? — Ela atendeu meio atordoada e logo ouviu a voz cheia de desprezo de sua sogra, Dona Sônia.
— Como é que a família Junqueira foi arranjar uma preguiçosa como você?
Helena suportara reprimendas mordazes como aquela durante um ano inteiro.
Sempre engolia tudo em silêncio.
Não por não ter personalidade ou só saber tolerar abusos.
Mas sim porque achava que, se entrasse em conflito com Sônia, colocaria Jorge em uma posição difícil.
Tinha pena da rotina exaustiva dele como presidente de uma multinacional, por isso não queria que ele se estressasse com problemas domésticos.
Mas, naquele dia, ela repentinamente decidiu não tolerar mais.
— Se a situação de um ano atrás não fosse tão urgente, e não houvesse mais ninguém além de você, eu jamais teria permitido que Jorge se casasse com você, você nunca esteve à altura do meu filho... — Sônia continuava do outro lado da linha.
— Eu também acho que não estou à altura do Jorge, mas o casamento não depende só de mim.
— Se a senhora não gosta de mim e me despreza, pode muito bem convencer o seu filho a pedir o divórcio e depois encontrar alguém que seja digna dele. — Helena respirou fundo, interrompendo as queixas.
— Jorge, durante todo este ano, implorei incontáveis vezes para você deixá-la, mas você sempre inventou desculpas. — Sônia bufou.
— Agora que ela mesma falou em divórcio, é uma ótima oportunidade.
— Não me importa o que você pensa, você tem que se separar dela!
— Você tem ideia de quantas pessoas da alta sociedade zombam da nossa família Junqueira pelas costas desde que você se casou com aquela garota caipira?
— Você...
— Mãe.
— Choveu forte ontem à noite. A Helena deve ter tido um sono agitado por causa dos trovões. — Jorge franziu a testa.
— São apenas sete da manhã e não há nada urgente para hoje. Por que a senhora teve que incomodá-la? — Enquanto falava, ele olhou o caro relógio de aço em seu pulso.
Ainda com o celular no ouvido, Jorge se virou e seus olhos captaram uma figura de pijama hospitalar parada à porta do quarto.
— Tenho algo para resolver agora. Vou desligar. — O olhar dele endureceu, e ele sussurrou ao telefone.
— Por que você saiu da cama? — Ele guardou o celular e caminhou até Yasmin.
— Eu ouvi sua mãe comentando que a Helena quer o divórcio... — Com um semblante pálido, Yasmin segurou-se no batente da porta e exibiu um sorriso fragilizado.
— Ela quer se separar de você... é por minha causa?
— Jorge, será que eu não devia ter voltado? — Enquanto falava, com os olhos lacrimejando, ela ergueu a cabeça para encarar o rosto de Jorge.

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