Isabel o viu encarando o papel e provocou:
— O bilhete estava premiado?
Sérgio abaixou os olhos e rebateu com frieza:
— Com a morte batendo na sua porta, você ainda consegue pensar no que vai acontecer com os seus milhões? Deve ser muito triste morrer sem ter gastado tudo, não é?
Isabel ficou sem palavras.
Ela rangeu os dentes. Isso só provava que era impossível ter uma conversa normal com aquele cachorro.
Sérgio lançou um olhar de canto para ela e guardou o bilhete no bolso. O que ele estava pensando era se alguém estava usando aquele buraco para invadir a cripta.
— Por que ficou muda? Tá pensando no saldo da sua conta bancária?
Isabel nem queria dar papo, mas o desgraçado estava pedindo.
— Diretor Serra, você sabe do que você vai morrer?
Sérgio a fuzilou com os olhos. Sabia que não vinha coisa boa daquela boca. Ele respondeu, indiferente:
— Você deve saber.
— Já que você ainda tem um pingo de consciência no corpo, eu vou te contar. Você vai morrer do próprio veneno. Sua boca é muito tóxica.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Ah, então sou eu quem tem veneno nos lábios?
Ela revirou os olhos.
— Viu? Agora já sabe como vai morrer!
Sérgio olhou para a mulher à sua frente, que agora tinha um brilho provocador no olhar, e sentiu o peito ficar um pouco mais leve.
Antes ela era dócil como uma gatinha caseira. Agora, que cismou com divórcio, virou um porco-espinho. E às vezes, quando armava contra ele, parecia uma gata selvagem. Por fora não parecia perigosa, mas na verdade esbanjava agressividade em cada detalhe.
A mão de Sérgio na cintura dela apertou, colando o corpo dela contra o seu peito.
— Dizem que marido e mulher dividem a cama em vida e o túmulo na morte. Se a minha boca é puro veneno, então hoje nós dois vamos dividir o mesmo túmulo. Bem poético.
Antes que ela pudesse reagir, o canalha abaixou a cabeça e tomou os lábios dela num beijo. Isabel ficou zonza com a investida repentina. Ela tentou recuar em pânico, mas suas costas bateram direto na parede de terra.
O homem, prevendo que ela tentaria fugir, ergueu a mão e amparou a nuca dela para que não se machucasse nas pedras.
Isabel não conseguia empurrá-lo e não tinha para onde correr. Foi obrigada a suportar o beijo possessivo dele.
Em um lapso de lucidez, ela lembrou dos últimos dois acidentes. Nas duas vezes, ele estava ao seu lado. Sem perceber, a resistência de seu corpo cedeu um pouco.
Sentindo que a mulher nos seus braços já não lutava contra ele, um desejo contido começou a queimar no peito de Sérgio.
Há quanto tempo ela não aceitava um beijo dele tão docilmente? Ele já nem lembrava. O toque macio e quente o fez se entregar à vontade, aprofundando ainda mais o beijo.
Lábios entreabertos, respirações ofegantes se misturando. Naquele buraco escuro e úmido, a tensão entre os dois escalou rapidamente.
— A escada chegou! A escada chegou!

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