A frase afiada da mulher fez Sérgio desviar o olhar na mesma hora.
Sua respiração, que havia ficado levemente descompassada, voltou ao normal num instante.
Essa era exatamente a mesma frase que ele havia usado contra Isabel no passado. Não esperava que ela devolvesse na mesma moeda.
— Tem coragem de gastar oitenta mil reais numa garrafa de vinho, mas tem pena de comprar roupas que prestem? — disparou Sérgio.
Ouvindo isso, Isabel achou que ele estava criticando seu vestido por não ser de grife e decidiu ignorá-lo.
Mas o maldito homem não sabia ficar calado.
Sérgio virou o rosto para a janela e murmurou num tom grave:
— Seu senso estético é péssimo.
A têmpora de Isabel latejou. Ainda por cima tem a audácia de reclamar.
Lembrando-se de que precisava de um favor, ela trincou os dentes e tentou manter o tom de voz nivelado.
— Tem toda a razão, Diretor Serra. Além de não ter senso estético nenhum, eu sou teimosa e cega.
Sérgio virou-se para ela, os lábios curvados num sorriso cínico.
— Pelo menos você tem uma boa autoconsciência.
Isabel apertou os lábios e assentiu.
— Só fui me dar conta disso nos últimos dias. Ser cadelinha de homem não leva a nada. Olhe para mim antes... Passava o dia todo orbitando ao seu redor. Perguntando que horas você ia sair do trabalho, o que queria comer, se tinha bebido, se o estômago estava doendo. Te irritava, e eu ficava lá, me fazendo de mártir. Se isso não é ser idiota, eu não sei o que é.
— Eu vivia uma vida patética, de casa para o trabalho, sem saber as maravilhas que o mundo lá fora oferece. Olhe para os garotões lá no clube do Isaque Rocha... um mais lindo que o outro, sabem cantar, sabem dançar, e falam exatamente o que você quer ouvir. O principal: ombros largos, cintura fina, pernas longas. Parecem verdadeiros deuses esculpidos. É só passar algumas horas lá e todos os problemas desaparecem.
— Por isso, de agora em diante, não vou mais ser idiota. Me sacrificar pelos outros não vale a pena.
As pálpebras de Sérgio tremiam de fúria enquanto escutava. Então era aí que ela queria chegar?
— Se você não consegue falar feito uma pessoa normal, pode esquecer as informações que queria.
— Para alguém do seu nível, basta ver um rostinho bonito e um abdômen definido que já perde as pernas.
Lembrando-se de que precisava dele, Isabel trincou os molares, arrependida. Por que eu não consegui fechar a boca? E se esse desgraçado não me contar mesmo?
— Sérgio Serra, você não pode usar isso para me ameaçar, seu mesquinho. Minha tia não tem muito tempo.
— Que tal assim: você me ajuda a conseguir o doador, e eu abato cem milhões no divórcio. Você me paga só duzentos milhões.
O homem, que já estava de péssimo humor, fechou a cara de vez.

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