Enquanto falava, Júlio puxou Isabel de trás dele.
— Que idade você tem para brincar de esconde-esconde?
Guilherme ignorou os dois e voltou a franzir a testa para o porta-joias à sua frente.
— Professor, essa sua testa franzida consegue até esmagar uma mosca.
A voz feminina soou cristalina e cheia de humor.
A mão de Guilherme tremeu, quase deixando a lupa cair.
Ao ver Isabel espiando por trás de Júlio, Guilherme ficou paralisado por três longos segundos. Em seguida, seus bigodes se ergueram enquanto ele batia a lupa com força na mesa.
— Ora, ora! Se não é a Sra. Serra! Que milagre a trouxe aqui?
Isabel não se ofendeu com o sarcasmo do professor. Pelo contrário, riu de forma doce:
— Foi o vento da sorte, professor. Vim trazer boas energias.
— Hmph! Casar com gente rica muda mesmo as pessoas. Agora você cheira a superficialidade. É dinheiro para cá, dinheiro para lá.
Embora suas palavras fossem ásperas, o brilho de alegria em seus olhos era impossível de esconder.
O nariz de Isabel ardeu. Ela caminhou até ele, abraçou o braço do velhinho e o balançou de leve.
— Por isso mesmo vim aqui, professor. Aqui não tem cheiro de dinheiro, então o senhor pode me ajudar a tirar toda essa superficialidade de mim.
— Melhor não. Do jeito que as coisas vão, capaz de você não perder a superficialidade e ainda infestar meu ateliê com o seu cheiro de dinheiro.
Vendo que Guilherme não parava com as alfinetadas, Júlio interveio para aliviar a barra de Isabel:
— Chega, tio. Você fala dela a cada dois dias. Se você continuar implicando e ela for embora, não conte comigo para levar recado.
Guilherme o fulminou com o olhar.
— Traidor! Fica aí defendendo ela. Em todos esses anos, nunca vi você ficar do meu lado.
Isabel sorriu:
— Júlio tem razão. Se o senhor continuar me atacando, eu vou embora mesmo. Sou uma garota, afinal. Fico sem graça facilmente.
— Você? Sem graça? — Guilherme soltou um riso anasalado. — Nunca vi ninguém com a cara mais de pau do que você.
Ao ouvir isso, Isabel começou a dar gargalhadas. Na época, ela realmente tinha sido muito cara de pau para convencer o professor Guilherme a lhe ensinar as técnicas de restauração de arquitetura histórica.

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