Os lances começaram um após o outro: cem mil. Cento e cinquenta. Trezentos mil. Quinhentos mil. Dois milhões de euros.
—5 milhões! Glauco ergueu a placa, a voz ressoando como um trovão no salão abafado.
—5 milhões, dou-lhe uma! 5 milhões, dou-lhe duas! 5 milhões, dou-lhe três – vendido! O leiloeiro anunciou, o rosto se contorcendo num sorriso tão largo que quase rasgava a pele enrugada. — Parabéns a esse senhor bondoso!
No palco, a Amália permaneceu impassível. Já havia perdido as contas de quantas vezes fora leiloada assim. O estômago revirava, mesmo vazio.
Mais uma vez, era colocada diante de homens que não a viam, avaliavam. Disputavam seu corpo como se fosse porcelana rara. Agora fora arrematada por um desconhecido, sua voz causou-lhe arrepios. Um refúgio? Não. Apenas um inferno diferente – onde sua carne valia mais que sua alma.
Aquela não era a primeira vez, mas parecia ser a ultima. Tinha doze anos, quando seu próprio pai vendeu-lhe pela primeira vez para trabalhar em uma casa de familia. Uma criança ainda e já condenada.
Escapou de casas trancadas, de mãos ásperas, de olhares sujos. Forçada a trabalhar, obrigada a calar. Sempre sozinha.
Aos dezesseis, sem ter para onde ir, voltou para casa. Estava fraca, faminta, mas viva. Ele a recebeu como quem recolhe mercadoria perdida. trabalhava e todo dinheiro que recebia dava a seu pai para que ele a deixasse ficar e não a vendesse novamente.
Porém sua ambição não tinha limites, a vendeu de novo, ela agora tinha vinte anos, vinte mil euros, foi a pedida, quanto valia sua honra? Sua vida? Para seu pai nada, apenas o suficiente para ele cobrir suas dividas de uma noite de jogatina.
Queriam mais do que seus serviços. Queriam seu corpo. Sua juventude. O desespero tem um ciclo cruel. E ali estava ela. Outra vez. Leiloada como quem põe uma peça em exposição.
Amália estava assustada. Sentia-se acuada e impotente. Por mais que tivesse tentado escapar, acabou sendo apanhada, ela sabia que seria a última, quando foi lavada novamente para aquele porão.
Em seu peito, o coração batia apressado. Ela podia ouvir, em seus ouvidos, o pulsar das artérias no silêncio daquele porão frio e úmido.
Depois de ter sido exibida ao “público”, em um vestido velho que mal cobria seu corpo, como uma mercadoria, fora acorrentada ali.
Ela não os encarou, mas, pelo pouco que viu, pareciam bestas-feras esperando para estraçalhá-la: olhos lascivos e gestos grosseiros. Sentiu o estômago revirar.
De volta àquele lugar onde estava havia três dias, permaneceu no chão. Poucas lágrimas caíram. Já não havia mais o que chorar, nem esperança.
Algum tempo depois, ouviu passos. O coração, que ainda não havia se acalmado, voltou a bater forte e acelerado, fazendo-a tremer de ansiedade e medo.
Quando os passos se aproximaram, ela continuou olhando para o chão. Seus cabelos longos cobriam o rosto sujo.
— O senhor tem certeza? Ouviu a voz suave de um homem, que soava ansioso.
— Sim. Absoluta! Respondeu o outro, com voz forte e magnética. Apesar do tom grave, parecia tranquilo.
Amália pressentiu quando um deles se aproximou e se agachou para olhá-la.
— Olhe para mim! Ordenou a voz firme.
— O que você quer de mim? Amália levantou o rosto e o encarou, ainda com algumas mechas caindo sobre o olhar. — Acha que, porque me comprou, vou ser grata a você? Acha que é melhor do que quem me vendeu?
— Não me acho melhor que ninguém. Eu sou. Não pense demais. Você é apenas uma mercadoria qualquer. Não tem nada de especial para mim. Disse ele, com voz compassada.
— Então me deixe ir! Se não se importa, me deixe ir! Ela alterou o tom.
Kakakaka. O riso dele ecoou pelo cômodo escuro de pedra. Ninguém esperava. Ele não parecia o tipo que ria.
— Sabe quanto você me custou? Perguntou, encarando os olhos azuis como safiras.
— Não sei, mas acredito que não tenha sido tanto. Sou apenas uma garota miserável, que teve a má sorte de nascer onde nasci. Se me der uma chance, posso pagar. Consigo um trabalho e...
Glauco a observava. Ainda não a tinha visto direito. Estava ali apenas de passagem, mas, ao ver os homens disputando por ela, não pensou duas vezes: deu o maior lance, um valor que ninguém além dele poderia cobrir. Fez por puro capricho.



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