Augusto havia arquitetado cada passo com cuidado. Expor suas cicatrizes, dividir a dor mais íntima, arrancar do peito o peso de anos e colocar diante dela a verdade inteira. Tudo para, mesmo que o perdão não viesse de imediato, ao menos conquistar a chance de um recomeço.
Sem Carlos para manipulá-lo e sem Leonor para sabotar, ele acreditava que, enfim, nada se interporia entre eles. Pensava que poderia se despir das máscaras e deixar que Margarida visse apenas o homem que sempre quis ser para ela.
Mas, diante de si, encontrou apenas o silêncio dela.
Do lado de fora, o vento castigava o mar, e o rugido das ondas se chocando contra as pedras reverberava pela casa. Cada estalo da água nas rochas parecia acentuar o peso da pausa.
O olhar de súplica que ele mantinha começou a perder luz. No jeito dela evitar qualquer palavra, ele já lia a resposta que temia ouvir. E ela veio, lenta e certeira, como se quisesse ser gravada para sempre:
— Augusto, agradeço por tudo o que fez para me proteger. Sei que se afastar de mim e se envolver com a Leonor foi uma decisão para salvar minha vida. Hoje, você está livre de Carlos, e fico feliz por isso. Mas isso não significa que devemos começar de novo.
Respirou fundo antes de continuar, mantendo a voz firme:
— Por mais que tenhamos enfrentado tantas provações, a dor ficou, as marcas ficaram. E a verdade que está aqui entre nós é impossível de negar. Naquele tempo, quando o pessoal da família Carvalho me acusou injustamente e quase acabou comigo, foi o Vicente quem me segurou pela mão. Quando Leonor me usou, quando você me humilhou e eu estive prestes a perder tudo, novamente foi ele quem me salvou. E desde então, em cada momento difícil, sempre... sempre foi o Vicente quem se colocou à minha frente para me proteger.
Um brilho seguro tomou conta dos olhos dela.
— É por isso que eu amo o Vicente. Só ele. Sempre foi ele, e sempre será.

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