A mansão estava silenciosa demais.
Dante permanecia sentado na sala, o corpo largado no sofá como se estivesse descansando, mas nada nele estava realmente relaxado. Um braço apoiado no encosto, a outra mão fechada em punho sobre a perna, os olhos fixos em um ponto qualquer à frente.
Kian já dormia havia horas.
O cheiro do filho ainda estava no ar, misturado ao da casa, à madeira antiga, à floresta do lado de fora. Normalmente, aquilo o acalmava. Normalmente, o silêncio da noite era um alívio.
Naquela noite, era tortura.
Ela ainda não voltou.
O pensamento vinha e voltava, insistente, como uma lâmina pressionando a mente dele. Dante tentava se convencer de que ela tinha dado a palavra, tentava confiar, tentava ignorar o lobo dentro dele andando de um lado para o outro, inquieto, impaciente, rosnando baixo.
“Ela vai fugir”, Hades rosnou.
“Ela não vai”, Dante respondeu mentalmente, mais firme do que se sentia.
“Você a deixou sair. Foi imprudente.”
O som da porta da frente se abrindo cortou o silêncio como um estalo.
Dante ergueu o rosto no mesmo instante.
Liana entrou.
Por um segundo, apenas um segundo, o peito dele afrouxou. Os ombros relaxaram quase imperceptivelmente, os olhos percorreram o corpo dela rápido demais, conferindo se estava inteira, se estava ali de verdade.
Ela estava.
O alívio durou pouco.
O cheiro veio logo depois, conhecido, o acertando como um soco.
Anton.
O corpo de Dante reagiu antes mesmo da mente processar. O ar pareceu se tornar pesado, denso, como se a casa inteira sentisse o mesmo que ele. Os olhos dele escureceram, o azul sendo engolido por um vermelho intenso, vivo, perigoso.
Um rosnado baixo vibrou em seu peito.
— Porra… — ele murmurou, se levantando de uma vez, um rosnado escapando de sua boca sem que ele pudesse controlar.
Liana percebeu a mudança imediatamente.
— Lá vem… — ela revirou os olhos, cansada demais para fingir que não estava vendo. — Se isso for algum tipo de código secreto de lobo, avisa logo porque eu não entendo rosnados.
Ela começou a subir as escadas, mas não deu dois passos até que a mão de Dante se fechou em torno do braço dela com força suficiente para fazê-la parar, mas não para machucar. Ainda assim, foi brusco. Possessivo.
— O que você estava fazendo com ele? — Dante perguntou, a voz grave, vibrando com algo que não era só raiva.
Liana se virou devagar.
— Com quem?
— Não finge — ele rosnou. — O cheiro dele tá em você.
Ela puxou o braço, tentando se soltar.
— Me solta, Dante.
— O que o meu irmão estava fazendo com você? — ele repetiu, agora mais alto. — O que ELE fez?
— Nada que você tem direito de saber — Liana respondeu, os olhos verdes brilhando de irritação. — Até porque você também não anda sendo muito transparente comigo.
Dante deu um passo à frente.
— Ele é perigoso.
Ela riu.
Não foi engraçado.
— Engraçado você dizer isso — retrucou. — Vindo de você.
O golpe foi certeiro.
— Não me compara com ele — Dante rebateu, a voz ficando mais áspera. — Anton é um assassino.
— E você é o quê, exatamente? — Liana devolveu, sem recuar. — Um sequestrador gentil?
O silêncio caiu pesado entre eles.
— Ele quer te usar — Dante continuou, tentando controlar a própria voz. — Ele mente, manipula, vai te destruir se tiver a chance.
— Talvez — Liana disse, cruzando os braços. — Mas pelo menos ele fala alguma coisa.
O vermelho nos olhos de Dante queimou mais forte.
— Do que você tá falando?
Ela respirou fundo.
— Quem é Celeste?
O nome pareceu cair como uma pedra entre eles e Dante ficou completamente imóvel.
O silêncio que se seguiu foi diferente de qualquer outro que já haviam dividido. Não era só tensão, era algo quebrando por dentro.
— O que ele te disse sobre ela? — ele perguntou, baixo demais.
— Isso importa? — Liana rebateu. — Eu cansei, Dante. Cansei de pedaços de verdade, de meias respostas, de sentir que todo mundo sabe de alguma coisa menos eu.
Ele soltou uma risada curta.
Sem humor nenhum.
— Claro… — murmurou. — Ele já começou.
— Começou o quê?
— Entender o quê?! — ele gritou.
O lobo dentro dele rugia, pressionando, exigindo violência, controle, domínio.
“Você está perdendo ela.”
“Marque.”
“Agora.”
Dante virou as costas de repente.
— Chega — ele disse, a voz baixa, perigosa. — Não quero mais falar sobre isso.
— Dante, espera — Liana tentou, dando um passo à frente. — Eu não terminei…
— Eu terminei — ele cortou, já se afastando. — Fica longe dele, se eu souber que se encontraram de novo, você não sai mais dessa casa.
Ele subiu as escadas sem olhar para trás.
Os passos pesados ecoaram pelo corredor.
A porta do quarto bateu com força.
O silêncio voltou.
Liana ficou parada no meio da sala, sozinha.
O coração batia pesado demais.
Ela olhou para a porta por onde ele havia sumido, depois para a escada, depois para a floresta escura além das janelas.
Anton.
Dante.
Mentiras.
Verdades pela metade.
— Eu só queria que tudo voltasse ao normal… — murmurou, exausta.
Mas no fundo, ela sabia.
Não existia mais “normal”.
“Mas se ele é um assassino… Por que me diria para perguntar a Dante sobre isso?”
Em quem podia acreditar? Não sabia, mas sabia que aqueles dois homens em pé de guerra iriam enlouquecê-la.
***
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