A casa na floresta estava mergulhada em silêncio.
Anton permanecia sentado à mesa de madeira escura, os cotovelos apoiados na superfície áspera, os dedos entrelaçados à frente do rosto. A iluminação era fraca, vinda apenas de uma lâmpada pendurada no teto, projetando sombras longas pelas paredes antigas. Apesar de meio velho e pouco iluminado, dava para ver que já foi uma bela casa, um lugar que, quando era bem mais jovem e menos rancoroso, ele pensou em transformar numa casa só sua e… de Celeste.
Sacudiu a cabeça mandando para longe qualquer lembrança daquela maldita.
À sua frente, espalhados de forma organizada demais para serem casuais, estavam os papéis.
Fotos.
Relatórios.
Nomes.
O rosto de Liana aparecia em várias imagens: andando pela rua, sentada num banco de praça, saindo da padaria, rindo com Babi, distraída, humana demais para imaginar o que se movia ao redor dela.
Anton observava cada foto como se estivesse tentando decorar algo precioso.
Ao lado dela, outras imagens.
Amélia.
Idêntica.
O mesmo cabelo ruivo, o mesmo formato de rosto, os mesmos traços. Mas o cheiro… o cheiro era outro, ele lembrava disso claramente.
Connan, seu beta, estava de pé ao lado da mesa, os braços cruzados, a postura tensa, o olhar atento.
— O nome dela é Amélia — disse, quebrando o silêncio. — Irmã gêmea.
Anton não respondeu de imediato.
— As duas cresceram em um abrigo — Connan continuou. — Órfãs desde muito novas, mão há registros dos pais. Nada concreto.
Anton ergueu uma sobrancelha.
— Nós sabemos bem quem são os pais dela — murmurou. — Só esconderam as duas muito bem.
Connan assentiu.
— Liana estava noiva — acrescentou. — Com um humano chamado Justin, aquele do shopping, que brigou com seu irmão. Pelo que descobri, o relacionamento acabou de forma… estranha.
Anton soltou um riso curto, quase divertido.
— Claro que acabou — disse. — Homens comuns nunca sabem o que fazer quando perdem algo que achavam possuir. E se ela está com meu irmão agora com certeza o noivado já foi para o saco.
Ele pegou uma das fotos de Amélia, observando com mais atenção agora.
— E a irmã? — perguntou. — O que ela quer?
Connan hesitou por um segundo.
— Dinheiro. Status. Atenção. — Ele deu de ombros. — Parece ressentida, muito ressentida. As duas não tem uma boa relação.
Anton sorriu de canto.
— Ressentimento é uma ferramenta poderosa.
Ele empurrou a foto de Amélia para o centro da mesa.
— Fique de olho nela — ordenou. — Pode ser… útil.
Connan inclinou levemente a cabeça.
— Pretende envolvê-la no plano?
— Talvez — Anton respondeu, levantando-se. — Talvez não, depende do quanto ela está disposta a perder para tirar algo da irmã.
Ele caminhou até a porta, pegando o casaco jogado sobre uma cadeira.
— Vou sair — avisou. — Tenho coisas para resolver.
— Vai até a alcateia? — Connan perguntou.
Anton abriu a porta, a noite fria entrando como um sopro.
— Ainda não — respondeu. — Mas em breve… muito em breve.
***
Na alcateia Blackstone, a madrugada avançava lenta demais.
Liana se revirava na cama pela terceira vez em menos de cinco minutos.
O lençol estava embolado, o travesseiro jogado de lado, o corpo inquieto como se estivesse tentando fugir de algo invisível. O quarto estava escuro, silencioso, mas a mente dela não parava.
Dante.
Anton.
Celeste.
Mentiras.
Ela fechou os olhos com força, tentando dormir.
Não conseguiu.
Com um suspiro frustrado, se sentou na cama, os pés tocando o chão frio. O relógio na parede marcava quase três da manhã.
— Ótimo… — murmurou.
Levantou-se devagar e saiu do quarto, caminhando pelos corredores silenciosos da mansão. Tudo parecia adormecido, como se a alcateia inteira estivesse suspensa num sono profundo, alheia ao turbilhão que consumia a mente dela.
O nome não foi dito, mas não precisava ser, ela sabia que era sobre Celeste.
— Mas dessa vez… — Olivia continuou, sorrindo de um jeito estranho — parece diferente. Parece que ele encontrou a verdadeira companheira.
As palavras ecoaram alto demais.
Liana parou de andar.
— Verdadeira? — perguntou, devagar. — Como assim?
Olivia congelou.
Literalmente.
— Eu… — ela gaguejou. — Eu quis dizer… quer dizer… foi só um jeito de falar.
Liana a encarou.
— Existe outra forma de companheira?
Olivia desviou o olhar, claramente desconfortável.
— Eu falei demais — murmurou. — Desculpa, de verdade.
— Olivia…
— Eu preciso dormir — a ômega interrompeu, forçando um sorriso. — Já tá tarde.
Ela fingiu um bocejo, se afastando rápido demais para parecer natural.
— Boa noite, Liana.
E saiu, quase correndo.
Liana ficou parada no meio do jardim, sozinha.
O vento passou entre as árvores, fazendo as folhas sussurrarem algo que ela não conseguia entender.
— Verdadeira companheira… — murmurou.
Levantou o rosto, encarando a lua.
Algo estava errado.
Muito errado.
— Vocês estão escondendo alguma coisa de mim — sussurrou, sentindo um arrepio percorrer a pele. — Alguma coisa muito séria.
A lua permaneceu silenciosa, mas, no fundo da floresta, algo se moveu.
E Liana teve a estranha sensação de que, quanto mais tentava descobrir a verdade… Mais se enfiava numa história que poderia matá-la.

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